quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Uma manhã em 2018

No quarto dia do curso de MPB no CFA, Tropicalismo fica no centro das discussões
Marilda Santanna: cantora, pesquisadora de música e apaixonada pelo Tropicalismo. Foto: Raulino Júnior

Um frame do programa Divino, Maravilhoso, apresentado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, em 1968, na lendária TV Tupi, foi o gancho para o historiador Vítor Queiroz iniciar a quarta aula do curso de Música Popular Brasileira (MPB). Isso porque o Tropicalismo, movimento cultural formado por um coletivo de artistas entre 1967 e 1968, foi um tema recorrente na aula de hoje. Mas falou-se sobre mais coisas, como o próprio Vítor faz questão de esclarecer: "Não só a Tropicália, mas da MPB dos anos 60 e 70, dos artistas mais associados à MPB: vem na cabeça Chico, Gil, Caetano, Bethânia, né? Desses artistas, ali naquele contexto, um contexto dos anos 60, de luta política por hegemonia dentro da esquerda e entre esquerda e direita, e depois de 1968, como o recrudescimento da ditadura civil-militar, um momento de desespero e de outra produção. Em geral, foi um debate bacana. Os alunos perguntaram sobre outras coisas e aí fomos completando o quadro".

Segundo historiador, a Tropicália "era uma vanguarda bastante explosiva". Para reforçar isso, ele colocou o famoso áudio do inflamado discurso de Caetano, durante o Festival Internacional da Canção, em 1968. "A Tropicália foi uma verdadeira descida aos infernos do Brasil", pontua Vítor. O pesquisador ainda opinou, de forma veemente, sobre o movimento: "Considerar a Tropicália como música, é uma pena, todo mundo fazia um pouco de tudo. Achar que todo mundo concordava com tudo , é uma pena. Não se pode burocratizar a Tropicália".

No quarto dia do curso, Vítor Queiroz fala sobre Tropicália e de toda a MPB dos anos 60 e 70. Foto: Raulino Júnior

Vítor falou um pouco sobre Nara Leão, Gal Costa, Maria Bethânia, Raul Seixas, Clara Nunes, Tom Zé, Jorge Benjor (que considera um injustiçado dentro da MPB, por não ter o prestígio que deveria ter), Joyce (outra que ele considera desprestigiada na MPB), Glauber Rocha e Elis Regina. Inclusive, ao falar de Elis, advertiu: "Cuidado com o mito Elis". E continuou: "Ela flertou com a postura Jovem Guarda: ser alienada e gostar de ser alienada. O lado sombrio de Elis Regina é extremamente oportunista", opinou. Obviamente, houve muita discussão sobre Elis Regina na aula. No final, venceu o indiscutível talento da cantora.

Marilda Santanna, cantora, pesquisadora de música, professora do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Pós-Cultura), saiu entusiasmada da aula: "A Tropicália, para mim, é um tema muito apaixonante. É um processo da linha evolutiva da música brasileira que quebra com uma série de paradigmas de sonoridade, mas em compensação absorve antropofagicamente uma série e referências. De Vicente Celestino às guitarras; a todo um pensamento, não só poético, mas de sonoridade, de um momento político muito conturbado. Em relação à aula de Vítor, eu estou choramingando, porque amanhã é o último dia. Ele é uma figura extremamente conhecedora da música brasileira, e mais do que isso, ele conhece também a questão histórica-social. Eu acho importante, porque a música não gravita fora de um contexto. Nada é estanque, tudo tem uma razão de ser", avalia. 

Amanhã, o Desde publica a última reportagem da série Música Popular Brasileira em Curso. Não deixe de acompanhar!
Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário

Copyright © Desde que eu me entendo por gente

Design by Josymar Alves