sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Música e contemporaneidade

Curso de MPB no CFA encerra atividades discutindo a música feita no Brasil de hoje
Carla Visi: "O povo brasileiro é muito criativo". Foto: Raulino Júnior

O último dia do curso de Música Popular Brasileira, ministrado por Vítor Queiroz, no Centro de Formação em Artes (CFA), em Salvador, foi marcado por euforia e muita discussão. A temática principal da aula estava relacionada à produção musical dos dias de hoje. Então, os cursistas se envolveram bastante, uma vez que muitos dos artistas citados estão em atividade e a plateia acompanhou de perto a trajetória artística de cada um deles. Vítor falou de BRock, o rock produzido no Brasil nos anos 80, do século passado. Músicas e informações sobre Blitz, Cazuza, Ultraje a Rigor, Titãs e Legião Urbana entraram em cena. Para falar do pagode, não deixou de citar Beth Carvalho e Zeca Pagodinho. Indagado sobre se há diferença entre pagode e samba, o historiador não fugiu da roda: "O pagode está num contexto do samba. É um dos sambas. Às vezes, a gente vê uma questão de marca social: 'Pagodeiro é ruim; sambista é bom'. Mas é mais uma diferenciação social. O pagode é uma variação do samba. Dá para dizer que o pagode é muito mais próximo do partido alto e do samba baiano". A banda Raça Negra também foi mencionada.

A descentralização da produção musical é a grande tônica que marca a música na contemporaneidade. Nesse sentido, a ascensão do Axé Music na Bahia e a cena do Tecnobrega, no Pará, são dois exemplos que evidenciam isso. Além do universo do funk. Na aula, os estudantes escutaram músicas do Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, Daniela Mercury, Gaby Amarantos, Gera Samba (É o Tchan), MC G15 e MC Fioti."Periferia consome periferia", reforçou Vítor.

Sobre a aula de hoje, o historiador considerou como um desfio: "Foi um grande desafio falar do que estamos vivendo. Então, eu comecei na virada dos anos 70 para os anos 80. A gente está descobrindo, tateando o que é que vai permanecer e o que é que não vai. O interessante é isto: ver um processo de descentralização, de informações musicais chegando de vários centros, a partir dos anos 80. O que vai acontecer agora? É um grande pergunta!", reflete.

Carlos Leal: "Achei o curso muito interessante". Foto: Raulino Júnior

O jornalista Carlos Leal, 47 anos, que pesquisa música há algum tempo, achou o curso interessante: "Eu tenho um projeto de uma biografia de Xisto Bahia e várias coisas que eu já sabia, fiquei sabendo mais além do que eu imaginava, através do curso. E outra coisa também que me instigou bastante: foi chegar em casa e ouvir as músicas referências das aulas. Então, acho que eu nunca ouvi tanto Carmen Miranda, Aracy de Almeida, como ouvi essa semana. Fantástico!". 

Carla Visi, cantora, jornalista e gestora ambiental, salientou que, como o curso, ficou ainda mais evidente a criatividade do povo brasileiro."O curso me atualizou, me fez ter contato com pessoas que gosto muito. É bom você sempre ter essas referências históricas e eu tenho muita tranquilidade, como uma artista também, em ver que o povo brasileiro é realmente esse povo muito criativo. Independe muito do fluxo do mercado também, que, apesar de ser extremamente determinante por um lado, porque somos artistas, precisamos nos manter, precisamos do sustento, por outro lado há toda uma cena que se cria de forma muito espontânea e, por ser um povo muito criativo, ele vai driblando as dificuldades e criando das suas agruras, das suas dificuldades, do mundo marginal. E isso é semente, é adubo pra gente que ama música. O povo brasileiro é incrível e a nossa cultura é riquíssima". 

Sobre a abordagem da cena do Axé feita durante o curso, Carla opina: "O Axé é muito específico. O Axé é muito rico, como as outras correntes, os outros movimentos da música brasileira. Aí você tem que ter um semestre só dedicado à música do carnaval, ao Axé e aos seus desdobramentos".

Como parte da turma era formada por músicos e cantoras, Vítor popôs que os artistas presentes fizessem uma demonstração das variações de sambas presentes na Bahia. A aula virou um pagode, com direito a canjas de Clécia Queiroz, Marilda Santanna e Carla Visi.

Balanço

Último dia de aula do curso de MPB: debates e reflexões acerca da música do Brasil. Foto: Raulino Júnior

Vítor fez um balanço positivo do curso: "Achei ótimo! O pessoal é muito caloroso! Isso é bem bacana de Salvador. Então, tem uma energia, tem uma vida. Muita gente contribuindo com a aula. Isso é muito legal! É uma pena que o curso vai rendendo e a vontade é de ampliar; porque, de fato, cada aula daria um curso sozinho". O pesquisador disse ainda que conseguiu chegar no objetivo que traçou: "O meu objetivo foi alcançado. Adorei dar esse curso. Também aprendi bastante. O meu objetivo é sempre aprender com meus alunos e também revisar bibliografia".

Mira Matos: "O CFA está aberto para atender a todo o público". Foto: Raulino Júnior

Mira Matos, coordenadora do CFA, também ficou satisfeita com a repercussão do curso de MPB: "O curso de Vítor foi um sucesso total. É um curso livre e, pra gente, todos os cursos são importantíssimos. Tanto os de música quanto os de dança e teatro. O Centro de Formação em Artes está aqui aberto para servir e atender a todo o público que vem aqui em busca de novos aprendizados".

O Desde fez a cobertura exclusiva de todos os dias do curso de Música Popular Brasileira, ministrado por Vítor Queiroz. Você pode ver todas as reportagens clicando aqui. Abaixo, segue uma enquete com alguns dos participantes do curso. A pergunta: para você, qual é a atual situação da MPB? Não deixe de ver!

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