quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A canção nossa do dia a dia

Curso de MPB no CFA aponta características do gênero

Larissa Caldeira: dissertação de mestrado centrada no cancioneiro de Tom Zé. Foto: Raulino Júnior

O que caracteriza uma canção? A resposta para essa pergunta foi o que norteou a aula de hoje do curso de Música Popular Brasileira (MPB), ministrado por Vítor Queiroz, no Centro de Formação em Artes (CFA), em Salvador. Na verdade, as respostas. De acordo com Queiroz, toda tentativa de conceituar algo é problemática e com a definição de canção não seria diferente. Contudo, o historiador trouxe algumas questões que ajudaram os participantes a refletir sobre tal questão: "Canção, no sentido mais amplo possível, a gente poderia falar de qualquer música que envolve letra. No sentido ultrarrestrito, será canção popular, das Américas, que depois foi para outros lugares do mundo, a canção industrial ou pós-industrial, adaptada aos três minutos dos antigos 78 rpm (rotações por minuto), adaptada ao rádio, feita pra prender a atenção do ouvinte, geralmente com uma forma narrativa. Antes do rádio, veio dos teatros musicais também em toda a América. As características são: textos poéticos-musicais circulares, em que o ouvinte é chamado a atenção. Geralmente, reflete o cotidiano do ouvinte. Agora, por que é problemático esse conceito, como qualquer conceito? Na verdade, como toda regra tem exceções, esse conceito tem um monte de exceções", pontuou. 

Durante o encontro, Vítor falou sobre a trajetória de alguns artistas do rádio, como Orlando Silva, Angela Maria, Aracy de Almeida, Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Emilinha Borba e Marlene. Tudo isso para que o formato de canção ficasse bem compreendido para os cursistas e também para que cada um percebesse como o cotidiano é uma temática constante nas letras dessas criações. Artistas como Tom Zé, Moreira da Silva, Marisa Monte, Bezerra da Silva, Wilson Batista, Silvio Caldas, João Gilberto, Wando e MC Orelha também tiveram suas canções analisadas, a fim de mostrar as características comuns dos formatos delas.

A jornalista e musicista Larissa Caldeira, 29 anos, opinou sobre a estratégia didática de Vítor para introduzir os conhecimentos acerca do gênero canção: "Ele estabeleceu o conceito geral do que seria canção, principalmente no que se refere ao popular, e, posteriormente, tentou trazer coisas mais específicas em relação a refrão, letra, parte A, parte B, a partir de alguns autores, a exemplo do Tatit, que a gente chegou a discutir também. Porém, eu acho que a perspectiva mais geral contribui mais para a gente compreender a música brasileira para além só de harmonia, melodia e ritmo. Porque a própria voz, a própria língua portuguesa é extremamente musical". Larissa, que canta e toca violão, cavaquinho e ukulele, se interessou pelo curso também por motivos acadêmicos: "Estou finalizando a minha dissertação de mestrado e a minha pesquisa é sobre Tom Zé, sobre a relação dele com a crítica musical. Estou fazendo isso a partir de dois discos: o Estudando o Samba e o Estudando o Pagode. Então, quando surgiu esse curso, eu falei: 'É uma oportunidade de pensar novas coisas, de discutir novas coisas'. Já que eu estou trabalhando com um artista complexo e tenho pensado em regimes estéticos a partir desse artista e a partir dos comentários críticos que se diz sobre esse artista, o curso me proporciona essa maneira de novas reflexões, não só a partir da minha zona de conforto, daquilo que eu já estudei ou daquilo que eu já sei. Além da oportunidade de conhecer novas pessoas, novos pesquisadores, novas maneiras de se pensar".

Aula sobre canção provoca um rico debate em curso de MPB no CFA. Foto: Raulino Júnior

Para falar de canção, Vítor tocou em temáticas que suscitaram muito debate entre o público. "Com a aula de hoje, eu peguei dois temas que têm uma ressonância emocional muito grande no país: crime e amor romântico. Como esses dois temas mexem com nódulos emocionais, medo, amor etc.,eu fui mostrando como a gente tem uma dialética entre o cotidiano, os músicos profissionais, os músicos amadores, os ouvintes, na construção de canções que falem do cotidiano. Como o crime e o amor foram vestidos de canção, nesse sentido".
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