domingo, 4 de outubro de 2015

Um lugar ao Sol

Prestes a completar 18 anos em atividade, a Casa do Sol é um verdadeiro lar para os moradores de Cajazeira V
Sede da Casa do Sol, em Cajazeira V. Foto: Raulino Júnior

Por Raulino Júnior || Reportagem Especial||

"E se quiser saber pra onde eu vou/Pra onde tenha Sol/É pra lá que eu vou". Esses versos, da música O Sol, do compositor e guitarrista Antônio Júlio Nastácia, poderiam ter sido feitos para a  Casa do Sol Padre Luís Lintner. A ONG (organização não-governamental), que fica no bairro de Cajazeira V,  parece ser a representação fiel da metáfora da canção. Ou seja, é o lugar da esperança de dias melhores.

Fundada em 1997 pelo padre Luís Lintner e pela missionária Pina Rabbiosi, ambos italianos,  a Casa do Sol desenvolve um trabalho educativo de integração e formação de crianças e adolescentes. Isso inclui os seguintes projetos: Viver e Aprender, creche de ensino regular para crianças de 3 a 5 anos, em tempo integral; Novo Espaço, espécie de reforço escolar, mas que pensa isso de forma mais crítica e abrangente, voltado para crianças de 6 a 12 anos; Adolescentes em Arte-Ação, oficinas artísticas de dança, teatro e música (violão, teclado e percussão), que atende adolescentes de 12 a 18 anos; e a Biblioteca de Ítalo.

Além disso, a Casa do Sol é um dos espaços onde acontecem as aulas do Curso  Popular Quilombo do Orobu, pré-vestibular engajado em temáticas como cidadania e consciência negra, com 16 anos de história.

História e proposta pedagógica

A Casa do Sol iniciou suas atividades muito antes de ter a sede atual, inaugurada em 27 de outubro de 1997. Desde 1994, padre Luís e Pina já se reuniam com pessoas da comunidade, principalmente as mulheres, a fim de saber de suas necessidades e de ser um momento para compartilhar experiências. Os encontros aconteciam em espaços cedidos e até em áreas abertas. "Padre Luís e Pina sempre apostaram na formação da comunidade e de como essa comunidade podia ser protagonista de sua própria história. Isso foi plantado desde o início", revela Tatá, diretor da unidade.

Em maio de 2002, o padre Luís foi assassinado e Pina, com o apoio de alguns moradores já envolvidos no projeto, ficou com a responsabilidade de dar andamento ao trabalho realizado pela instituição. A missionária mora na Itália, mas continua acompanhando todas as ações desenvolvidas pela Casa do Sol.

Tais ações têm como base pedagógica o ato de viver e aprender.  "O trabalho educativo que é realizado com as crianças visa potencializar as habilidades delas e estimular a capacidade para aprender novas habilidades, além de estimular um olhar crítico sobre a própria realidade em que vivem. Tudo é alicerçado pela pedagogia de Paulo Freire, uma pedagogia mais humanista", explica Edlamar França, a Dila, 35 anos, coordenadora pedagógica do projeto Adolescentes em Arte-Ação. "A gente aprende a partir das nossas vivências, das experiências que a gente tem. Então, cada situação aqui é entendida como uma situação que vai promover o aprendizado", completa.

Tapete Vermelho

Os projetos da Casa do Sol não são restritos às crianças e adolescentes residentes em Cajazeira V, eles estão abertos para o público do entorno do bairro, mas Dila pondera: "Cada caso é estudado, em função do deslocamento, das condições financeiras da família".

Abertura, por sinal, é uma palavra presente no cotidiano do lugar. A Casa do Sol preza pela pluralidade, em todos os sentidos. "Apesar de ter sido fundada por pessoas que tinham afinidade com o catolicismo, ela é aberta. Aqui, quem tem religião, quem não tem; quem é de candomblé, quem é de igreja evangélica, todo mundo participa. É um espaço da comunidade, que precisa ser utilizado pela comunidade. A gente entende que tem muitas coisas para poder melhorar, mas o que é o alicerce daqui é a participação efetiva da comunidade", esclarece Dila.

Edlamar França, Lilia Raquel e Maria da Conceição do Amor Divino: parte da comunidade da Casa do Sol. Foto: Raulino Júnior

 Para reafirmar ainda mais essa característica de não criar muros nem demarcar diferenças, quem vai à Casa do Sol se depara com um tapete vermelho na entrada. De acordo com Dila, "todas as crianças, todas as visitas, quem chega é importante para essa Casa".

Quem é Ítalo

A Biblioteca de Ítalo tem um acervo com mais de oito mil títulos, contando com obras literárias, enciclopédias, periódicos, dicionários e obras acadêmicas. "É uma biblioteca comunitária. As pessoas só precisam fazer o cadastro para pegar os livros. O empréstimo é válido por uma semana, podendo ser renovado", afirma Lilia Raquel, 25 anos, uma das monitoras da biblioteca. Lilia tem relação com a Casa do Sol desde pequena. "Minha mãe é voluntária daqui. Cresci com o exemplo dela. Sempre quando me chamam, e eu posso, estou aqui. A Casa é um ambiente acolhedor, que me entende". Aos sábados, Lilia trabalha na portaria da instituição, recebendo os adolescentes que participam das oficinas artísticas.

Lilia Raquel, na Biblioteca de Ítalo. Foto: Raulino Júnior

A biblioteca realiza atividades de mediação de leitura, contação de histórias e saraus de poesia. "A proposta é de uma biblioteca dinâmica, em que você possa fazer atividades culturais relativas ao ato de ler livros", pontua Dila.

E quem foi Ítalo? "Italo era um jovem italiano que, em vida, queria fazer um trabalho para contribuir com organizações, com projetos sociais,  na África e na América do Sul. Segundo a mãe, ele falava que quando não tivesse mais vida, queria que as suas coisas fossem revertidas para um trabalho que pudesse promover transformação social. Ele morreu devido a um acidente de bicicleta, na Itália. A família, então, fez uma pesquisa e chegou até à Casa do Sol. Para a gente, foi surpreendente, tem um valor muito grande. Por isso, a biblioteca foi batizada com o nome dele", confidencia Tatá.

Calendário

A Casa do Sol tem um cronograma anual extenso, repleto de atividades de cunho educativo e cultural: Feira de Arte e Cultura (evento que tem bazar e atividades culturais); A Tarde Cultural (é o momento de culminância do projeto Adolescentes em Arte-Ação); e o Seminário (que sempre discute temas de importância para a sociedade). Para Tatá, essas ações são compromissos obrigatórios da instituição: "A gente se sente responsável em oferecer à comunidade momentos de cultura, de arte e de lazer. E é uma provocação para que os jovens e as crianças que estão aqui, trabalhando o ano todo, mostrem para a comunidade o que eles produziram".


Com a palavra, Tatá

Foto: Raulino Júnior

Altair Honorato Pacheco, o Tatá, tem 36 anos de idade e é formado em Geografia, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Com vasta experiência em movimentos e pastorais sociais, trabalhou no Centro de Estudo e Ação Social (CEAS) e credita sua formação cidadã à Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP). Chegou à Casa do Sol aos 17 anos, participando dos projetos de lá, e foi membro-fundador do Curso Popular Quilombo do Orobu. "O curso é uma experiência revolucionária". Hoje, dedica-se de forma exclusiva à direção da Casa do Sol, função que exerce desde 2006. Nesta entrevista exclusiva que concedeu ao Desde, Tatá fala sobre os critérios para que um estudante ingresse na instituição, o público atendido e os prêmios recebidos.

Desde que eu me entendo por gente: Como se dá o ingresso dos estudantes na Casa de Sol?

Tatá: Para a educação infantil, como a demanda é maior do que a oferta, a gente faz a divulgação para a comunidade e tem um processo de seleção. Estabelecemos alguns critérios, como: a) a família precisa morar nas redondezas, em Cajazeira V ou nos bairros adjacentes; b) tem um critério que avalia o perfil socioecônomico da família (prioridade para famílias que recebem até um salário mínimo por pessoa), ela deve estar enquadrada dentro dos programas sociais (Cadastro Único); e c) visitas técnicas para confrontar as informações. A gente dá oportunidade às famílias que mais precisam.

Desde: Qual é o número do público atendido e quantos educadores trabalham aqui?

Tatá: Dos dois projetos que a gente tem atividade cotidiana (Viver e Aprender e Novo Espaço), são 150 crianças. Temos uma equipe de 25 educadores e um grupo de voluntários que contribui com o processo. A gente entende que todos na Casa do Sol são educadores, não só quem está em sala de aula. Em cada contato que a gente tem com o educando, a gente está aprendendo e ensinando. Qualquer ação nossa é uma ação educativa.

Parte dos educadores da Casa do Sol (da esquerda para a direita): Edlamar França (Dila), Lilia Raquel, Maria da Conceição do Amor Divino, Ivan Santos, Emanuel Montenegro e Tatá. Foto: Raulino Júnior

Desde: A Casa do Sol é uma instituição premiada. Quais foram os prêmios conquistados ao longo da trajetória?

Tatá: O primeiro prêmio conquistado foi o Prêmio Criança, da Fundação Abrinq, em 2006. Ele condecorou o projeto de educação infantil da Casa do Sol como a melhor experiência de educação infantil do Brasil. Em 2009, apresentamos o projeto Novo Espaço, no Prêmio Itaú-Unicef, e fomos premiados na categoria médio porte. Em 2010, a gente se  inscreveu no FIES, que é o Fundo Itaú Excelência Social, e o projeto de educação infantil foi selecionado.
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2 comentários:

  1. Amei a matéria! Vale muito a pena a divulgação... um abraço Rau!

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    1. Obrigado, Sandra! De fato, o trabalho da "Casa do Sol" precisa ser conhecido por mais gente. Abração!

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