domingo, 2 de agosto de 2015

"O novo artista do mercado de hoje precisa ser um artista muito mais preparado do que o novo artista do mercado de antes", afirma jornalista

 Em oficina, jornalista dá dicas sobre como novos artistas da música podem se destacar no mercado

O jornalista Bruno Nogueira, durante a oficina: dicas para novos artistas da música. Foto: Raulino Júnior

 Por Raulino Júnior

"Como é que eu, novo artista, chamo a atenção das pessoas"? Certamente, muitos profissionais que têm a arte como ofício já se fizeram essa pergunta. A indagação também foi feita pelo jornalista pernambucano Bruno Nogueira, na manhã de ontem, durante a oficina Divulgação e Promoção para Novos Artistas, que integrou o primeiro dia de programação do I Festival Radioca. Com o questionamento, Bruno quis provocar as pessoas que compareceram ao Trapiche Pequeno, no bairro do Comércio, local da oficina. Mas, e você, já pensou sobre isso?

Conceito

Na oficina, que teve como ênfase dar dicas para quem está envolvido com música, Nogueira abordou aspectos relacionados ao início de carreira de um artista. "O novo artista precisa ter um conceito de artista. A pior coisa que um artista faz é dizer que toca de tudo. Tem que ter um conceito bem definido". O jornalista afirmou também que é importante para o novo artista ter consciência da realidade do mercado, para saber como é possível chegar lá. "Olhar para quem está no entorno é importante, principalmente para saber como essa galera [os outros artistas] conseguiu chegar. O iniciante deve tentar trilhar um caminho similar".

Quem trilhou o seu caminho há algum tempo foi o cantor, compositor e produtor musical Tenison Del Rey, que, apesar de não ser um iniciante, se interessou pela temática da oficina. "Eu sou gestor de carreira, tenho uma produtora chamada Faro Fino Produções Artísticas e sempre tenho interesse de renovar as ideias, trocar informação, se aproximar do novo. Para mim, isso é fundamental".  Questionado sobre como vai utilizar os conhecimentos adquiridos na oficina para a carreira do filho, o cantor e compositor Peu Del Rey, de 25 anos, Tenison explicou: "A gente vai juntar a expertise do Bruno, tudo que ele trouxe nesta oficina, com a nossa experiência profissional também. A gente já faz um trabalho focado, muito profissional. Peu tem, aproximadamente, seis anos de carreira e está morando em São Paulo agora. A gente vai juntar essas experiências para chegar num lugar sempre mais profissional na carreira dele".

Tenison Del Rey: cantor, compositor e gestor de carreira. Foto: Raulino Júnior

Crise da mídia

Um dos pontos mais interessantes da oficina foi quando Bruno abordou aspectos relacionados à divulgação do trabalho de um novo artista. Ao contrário do que muitos pensam e fazem até questão, ser pautado na TV, no rádio e nos sites já não é mais tão importante assim. "O artista deve se preocupar em divulgar o seu trabalho para o público e não para a imprensa. Hoje, a gente vive muito mais uma crise da mídia do que da música. A única utilidade da mídia para o novo artista é quando ele se inscreve em editais".

Nesse sentido, Bruno deu um conselho fundamental em relação ao uso dos recursos da internet, principalmente das redes sociais em evidência, pelo novo artista. Às vezes, o artista sai criando perfis em tudo que aparece e esquece de fazer um trabalho mais segmentado, potencializado o seu alcance e usando a internet a seu favor. "Ele não precisa chegar a muitas pessoas, mas nas pessoas que importam", decretou.

Dicas

Ao longo da oficina, Bruno deu dicas sobre a produção e uso de releases, a importância de regsitrar tudo que pode se transformar em "conteúdo propágavel" (fotos de ensaio, vídeos das viagens e etc.) e a necessidade de o novo artista ter alguém que o dirija artisticamente. "Ter um olhar externo é muito importante", pontuou. Outra dica diz respeito a algo que todo mundo está cansado de saber: investimento financeiro. "Se você é um novo artista e quer se lançar, vai ter que gastar dinheiro. A primeira forma de gastar dinheiro é investir num bom estúdio. Tem que ter uma música boa e bem gravada".


Com a palavra, Bruno Nogueira

Foto: Raulino Júnior

Bruno Nogueira tem 33 anos e é jornalista, formado pelas Faculdades Integradas Barros Melo: AESO. Estagiou no tradicional Jornal do Commercio e integrou também a equipe dos jornais Folha de Pernambuco, Diário de Pernambuco e A Tarde. Escreveu para as revistas Rolling Stone, Billboard e OUTRACOISA, do cantor e compositor Lobão. Tem mestrado em Comunicação Social, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e doutorado em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atualmente, é professor adjunto da UFPE, no curso de Jornalismo e mantém o blog Quarenta e Dois. Interessado por música desde que nasceu, pois o pai era cantor e diretor de rádio, nesta entrevista exclusiva que concedeu ao Desde, Bruno fala sobre o perfil do novo artista e os erros que ele comete na gestão da própria carreira.

Desde que eu me entendo por gente: Quem é esse novo artista ao qual você se refere?

Bruno Nogueira: Isso foi uma provocação que eu fiz logo no começo: a gente precisa repensar o que significa ser um novo artista. Eu não gosto de fazer falas em que eu traga respostas, mas uma das coisas que eu direcionei é de que o novo artista do mercado de hoje precisa ser um artista muito mais preparado do que o novo artista do mercado de antes, em que a gente conseguia ter um espaço para pessoas que não estavam preparadas para entrar no mercado, que hoje a gente já não tem tanto, quando se pensa em programação de festival, edital, essas coisas. A gente tem uma demanda de novo artista, agora tem que ser um artista que já tem um trabalho, com um público, que já esteja pensando na sua divulgação, que já esteja minimamente focado e não seja um bando de doido fazendo música porque não conseguiu arrumar emprego.

Desde: Nesse sentido, qual novo artista brasileiro, na sua opinião, consegue gerir bem a própria carreira?

BN: É tão difícil responder essa pergunta. Eu consigo dizer não um novo artista, mas um médio artista, que até seis anos atrás era um novo artista e hoje já deu uma crescida. A Maglore, daqui de Salvador, é um novo artista; Selvagens à Procura de Lei, de Fortaleza, é um novo artista. Um artista que tem uma trajetória muito curta, mas eles deram sorte: entraram em gravadora, arrumaram gente para distribuir o disco. Isso não os transformam num artista médio, acelera um pouco o processo. O Apanhador Só é um artista relativamente novo, mas a gente já coloca numa classe média. Então, são artistas que se enquadram um pouco dentro desse perfil. Artistas que são menos dependentes de sair em jornal, menos dependentes de sair num blog de música.

Desde: Quais os principais erros que, no intuito de se promover, um novo artista acaba cometendo?

BN: Os principais erros são: a) não saber se conceituar como artista. Eu estou conversando com você, você tem uma banda e eu te pergunto de quê e você começa a falar que é uma banda que mistura todos os ritmos, que tem referência de coisas que não batem e você não consegue simplesmente falar: "É uma banda de rock". Às vezes, falar que é uma banda de rock ajuda muito a entender do que se trata. Não saber se delimitar é um erro que boa parte dos novos artistas comete. Porque não é fácil também. No começo, você está experimentando muito, tem caminhos para seguir. Você não quer já começar colocando limites; b) um outro erro comum é você se preocupar demais em estar em contato com produtor, com jornalista, com  a cadeia produtiva da música e não entender que o público é a parte fundamental dessa cadeia. Você faz show sem banda, mas não faz sem público. Se uma banda toca num lugar que não tem ninguém assistindo, esse show não aconteceu. Então, um outro erro grande é este: não entender a importância que tem de estar em contato com o público, de você conseguir conversar com o seu público, de você fazer o seu público olhar para outras pessoas e falar: "Seja fã dessa banda também". Isso é uma coisa que move a música.








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2 comentários:

  1. Interessante, Raulino! Muito boa a explanação do Bruno, com dicas valiosas. Puxa!!! Perdemos!!!! Já estou seguindo o blog dele... excelente matéria! Um abraço!

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    1. Foi muito bacana mesmo, Sandra. Aprendi muito! Abração e, mais uma vez, obrigado pela visita!

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