sexta-feira, 10 de julho de 2015

Em entrevista, coordenador da Biblioteca Abdias Nascimento, Eduardo Pereira Odùdúwa, fala sobre os projetos e desafios da instituição

Eduardo Pereira Odùdúwa, na sede da Biblioteca Abdias Nascimento, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Foto: Raulino Júnior. Edicão de imagem: Josymar Alves
Por Raulino Júnior

O arte-educador Eduardo Pereira Odùdúwa, 34 anos, é um representante fiel do cidadão que contribui para transformar a sociedade na qual está inserido: engajado, consciente e mobilizador. Há sete anos, fundou e coordena, junto com a sua mulher, Isis Sacramento, a Biblioteca Abdias Nascimento (BAN), que fica na Avenida Afrânio Peixoto, a famosa "Avenida Suburbana". A instituição é a primeira biblioteca independente, em Salvador, especializada em cultura afro-brasileira e africana. Em 2012, o espaço virou Ponto de Leitura, através do Programa Mais Cultura, do Ministério da Cultura. Nesta entrevista, Eduardo fala sobre as ações e perspectivas futuras da BAN." Nosso grande desafio, agora, é ter a sede própria. Isso vai viabilizar muita coisa", aposta.

Desde que eu me entendo por gente: O nome da biblioteca é Abdias Nascimento, que faz referência a um ícone do povo negro e da nossa cultura. O que motivou a homenagem?

Eduardo Pereira Odùdúwa: Na época, eu, minha esposa e mais cinco pessoas, todos arte-educadores, resolvemos criar esse projeto porque a Lei 10.639/03, que obriga as escolas a ensinarem a história e cultura afro-brasileira e africana, tinha sido recentemente criada, mas a gente percebeu que não havia uma acessibilidade ao material que era produzido sobre essa cultura.  Coincidentemente, em 2008, Abdias veio a Salvador para receber o título de doutor honoris causa, pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), e nós o conhecemos. Tanto ele quanto Elisa Larkin Nascimento [viúva de Abdias]. Resolvemos fazer essa homenagem porque Abdias é uma figura que tem tudo a ver com a nossa proposta, tanto na literatura, no teatro e nas artes plásticas. Aqui, apesar de ser uma biblioteca, tem uma atuação bem ampla.

Desde: Há algum diálogo com as outras bibliotecas de Salvador?

EPO: A gente é cadastrado na Fundação Pedro Calmon, a fundação que gerencia as bibliotecas aqui na Bahia, e na Fundação Biblioteca Nacional também. Já fizemos parte de algumas redes de bibliotecas, mas o nosso vínculo é via Pedro Calmon mesmo.

Desde: Como ocorre o sistema de empréstimo de livros?

EPO: A gente faz um cadastro. As pessoas interessadas vêm aqui, preenchem a ficha e trazem a documentação básica (comprovante de residência e xérox da identidade). O empréstimo é gratuito, por sete dias, e pode ser renovado.

Desde: A visitação é grande?

EPO: Hoje, estamos atendendo, praticamente, por visita agendada; porque aqui não tem um fluxo tão constante. Isso, na realidade, é um problema de todas as bibliotecas de Salvador. Como a gente faz muitas atividades externas, nas escolas, nos terreiros, em algumas Organizações Não Governamentais (ONGs) que são parceiras, as pessoas conhecem o nosso trabalho e quando têm interesse de visitar e até mesmo fazer empréstimo de algum livro, entram em contato, por telefone ou pelo e-mail, a gente marca o dia da visita e ela acontece.

Desde: O que essa experiência de sete anos de estrada trouxe? Quais foram os desafios? [A BAN foi fundada em 30 de maio de 2008].

EPO: Essa é a nossa quarta sede provisória. Nós estamos, agora, começando a construir a nossa sede própria, em Periperi. Eu acredito que, em novembro, nós estejamos inaugurando a sede definitiva. Essa foi uma experiência que a gente teve, de estar mudando, mas sempre mantendo esse eixo entre Periperi e Praia Grande. Nós começamos em Escada, depois fomos para Itacaranha, em seguida para Periperi e viemos para cá. Daqui, a gente só sai com o nosso espaço próprio.

Eduardo posa ao lado do acervo da BAN: mais de 1000 títulos. Foto: Raulino Júnior

Desde: Qual foi a razão para implementar o projeto da biblioteca?

EPO: Na realidade, o Subúrbio, e isso já é uma coisa comprovada hoje, é a região de Salvador que tem o maior número de população negra e a maior quantidade de terreiros de candomblé. Então, a questão da negritude é muito forte aqui, apesar de a consciência ainda não ser muito grande. As pessoas ainda não têm essa consciência racial, ainda é uma briga que a gente está travando, mas a cultura negra aqui é muito forte. Há muitos grupos culturais de capoeira, de música, de dança. Esse foi o motivo.

Desde: Você é leitor? Qual livro você está lendo no momento?

EPO: Sou. No momento, eu estou lendo um livro sobre Abdias Nascimento, da coleção Grandes Vultos que Honraram o Senado. Aqui na Bahia, só existem dois exemplares desse livro. Foi lançado recentemente e um dos exemplares, que é o que está aqui em Salvador, ficou conosco. Recebemos das mãos de Elisa Larkin. [Eduardo não lembra onde Elisa deixou o segundo exemplar, mas tem certeza que não foi em Salvador. O livro que fala sobre Abdias é de autoria de Elisa Larkin Nascimento. A coleção é uma iniciativa do Senado Federal].

Desde: Você, como arte-educador, o que acha sobre a prática da leitura no Brasil e na Bahia? 

EPO: A gente já não tinha uma cultura muito forte de leitura, né? Neste momento, a gente vive uma crise, por  causa da questão da internet, dos meios eletrônicos. Eu acho, na realidade, que é um momento de mudança. Estão sendo criadas outras possibilidades de leitura, que a gente precisa saber como acompanhar, para não perder o hábito do livro impresso, do livro físico. Como arte-educador, como eu faço um trabalho de contação de história também, eu estimulo. Sempre que vou contar história, eu levo o livro impresso, para que as crianças vejam, tenham contato, e aquelas que já sabem ler, possam ler, recontar a história. Então, eu acho que essa é uma estratégia.

Desde: Quais serão as próximas ações da BAN?

EPO: Tem várias outras atividades que a gente tem interesse de fazer, mas a gente não tem braço, não tem espaço. Nosso grande desafio, agora, é a sede própria. Isso vai viabilizar muita coisa. A gente quer fazer um trabalho mais específico com as crianças, inclusive nessa questão de formação de leitores, e é muito mais complicado a gente ir até às escolas e em outras instituições. Com a sede, a gente tem essa possibilidade de trazer as crianças e fazer um trabalho mais específico.

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A seguir, Eduardo Pereira Odùdúwa descreve, de forma específica, cada atividade realizada pela Biblioteca Abdias Nascimento. Todas as ações são gratuitas.

Sede da BAN, na Avenida Afrânio Peixoto (Suburbana). Foto: Raulino Júnior

Curso de Língua e Cultura Yorubá: "Eu sou professor de língua iorubá, formado pelo Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO). O curso, que dura de três a seis meses, existe desde o primeiro ano da BAN. A cada semestre, nós temos uma nova turma".

Oficina de Percussão e de Atabaques: "Nós fizemos nos dois primeiros anos, paramos e retomamos neste ano. Estamos com uma turma numa academia, em Águas Claras".  

Coral Afro nkorin Yorùbá: "É um coral de língua iorubá, formado por ex-alunos do curso. Ao longo do curso de iorubá, as pessoas sentiram essa necessidade de expressar, mostrar essa cultura, os diversos valores culturais. Aí, em 2013, alguns alunos resolveram se organizar e formar esse grupo". 

JAM da BAN: "É uma jam session e sarau poético que acontece uma vez por mês, no Parque São Bartolomeu. Reúne a juventude, os músicos locais e a gente leva o nosso acervo de poesia africana e afro-brasileira. A gente tem uma coleção de literatura angolana muito rica". 

NaEncruza: "É um encontro que a gente faz, especificamente, com os povos de terreiro ou para discutir questões relacionadas a esses povos. Nós vamos até o terreiro, fazemos uma discussão ou trazemos alguns representantes aqui para nossa sede".

Acervo Itinerante: "Há uma resistência muito grande, hoje em dia, de as pessoas virem até o espaço da biblioteca. Sendo assim, nós levamos o nosso acervo, uma vez por mês, para as escolas públicas daqui da região. É justamente o momento que a gente faz a aproximação e, a partir daí, as pessoas entram em contato pra vir aqui e conhecer, de fato, todo o acervo e as atividades".

Omodé Griô: "É uma contação de história. Neste momento, nós não estamos fazendo. Fizemos até o ano passado, no Centro de Referência de Assitência Social (CRAS) da Barroquinha, com as crianças ali do Centro Histórico e do entorno".  

Agbá Griô: "É um projeto com os mais velhos, que começamos no ano passado. A gente trabalha com o pessoal do grupo de idosos Conviver Vó Maria, daqui de Periperi. A gente faz um trabalho de resgate da memória, comparando as histórias que eles conhecem com as histórias africanas".





 
 














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