domingo, 31 de agosto de 2014

A simpatia, o engajamento e a arte de Shirlei Sanjeva

Com determinação e esforço, Shirlei Sanjeva vai encontrando os seus caminhos

Shirlei Sanjeva, no Passeio Público. Crédito: Raulino Júnior

A menina que chegou como voluntária no Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (NEIM/UFBA), e hoje pleiteia uma vaga de bolsista, diz estar “superapaixonada” pelas questões que tratam de mulher e sexualidade. Por isso, pretende concluir logo (com ênfase) o curso de biologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ingressar num mestrado para dar continuidade às pesquisas que faz no NEIM. “Quero terminar a graduação e entrar no mestrado para estudar a mulher, a mulher negra, raça, gênero, sexualidade; toda essa viagem que me interessa muito”, planeja. Shirlei é assim. Apaixonada pelas coisas que gosta. As que gosta, é bom deixar claro. Aos 23 anos, a soteropolitana se divide entre estudos, pesquisas acadêmicas e arte. Sempre com um sorriso no rosto. Filha única da técnica em radiologia Dejanira de Jesus e do motorista Jorge da Silva, Shirlei tem muitos sonhos, um deles envolve diretamente os pais. “Hoje, tudo o que eu quero, é ter uma estabilidade de vida e poder dar uma estabilidade de vida para os meus pais”.


Universo artístico

Shirlei e o peculiar sorriso. Crédito: Raulino Júnior
Shirlei é uma daquelas pessoas que gostam de fazer muita coisa, ao mesmo tempo e que se cobra para fazer bem. Além da relação que tem com o universo acadêmico, ela é atriz, integra a Tribo Bossambá (coletivo artístico que dialoga com as linguagens da música, da dança, do teatro e da literatura) e também anda de mãos dadas com a poesia. A identidade artística de Shirlei se revela até no sobrenome artístico que escolheu: Sanjeva. É que, na verdade, ela foi batizada Shirlei Santos de Jesus Silva. Contudo, a sua criatividade deu espaço para a artista Shirlei Sanjeva, cujo sobrenome nasceu da junção de algumas sílabas dos seus três outros sobrenomes: de Santos, veio o San; de Jesus, veio o Je; e de Silva, o va. Enfim, brincar com as palavras é uma das potencialidades de Shirlei.


Dessa intimidade com o universo das letras, teve estímulo para criar, em 2009, o seu primeiro blogue: o Instante Indefinido, que mudou de nome para Poemaresia por causa de um plágio feito no exterior. Na página, Shirlei usa sua veia poética para falar sobre questões da vida, cotidiano e estados da alma. Já no blogue Um Bocado de Cotidiano, fundado em 2013, assume um tom mais crítico e político, dando destaque para a sua visão do mundo. Será que ela pensa em publicar livros com os textos? “Já passou um pensamento, mas eu sou muito resguardada com minhas coisas. Pouquíssimas pessoas conhecem os meus blogues”.


Dos palcos e da rua

Shirlei Sanjeva. Crédito: Raulino Júnior
O que muita gente sabe de Shirlei é a sua evidente queda pelo teatro. Tudo começou em 2009, quando passou a fazer parte da Companhia de Teatro Recortados e Remendados. Com a trupe, levou, literalmente, o teatro para praças, ônibus e para o circuito do carnaval de Salvador, em 2011. “A gente saiu todos os cinco dias de carnaval e foi pauleira. Pauleira de verdade!”, afirma,  num misto de alegria e orgulho ao falar.

No final de 2011, o grupo Recortados e Remendados participou do projeto Ato de Quatro, da Escola de Teatro da UFBA, e lá conheceu a turma da Tribo Bossambá. Em pouco tempo, os grupos firmaram parceria e criaram o espetáculo cênico chamado Bóssambacos. Isso porque Os Bacos era o nome da peça do grupo de teatro de rua que Shirlei fazia parte. Foi nessa ocasião que ela “conheceu melhor” o cantor, compositor e jornalista Romero Mateus. Hoje em dia, além da Tribo Bossambá, os dois têm parceria na vida e na criação artística. “Minhas poesias começam a ter mais rima a partir de 2011, período em que conheci Romero, que tem música pra caramba. Hoje, é uma coisa bacana que acontece: ele coloca música nas minhas poesias. Eu comecei a fazer música com ele. A última foi feita através de mensagens de texto que a gente trocou. Foi um encontro de almas, existe uma sintonia muito boa entre nós”, orgulha-se. 

Apesar de toda essa euforia para o lado artístico, Shirlei confessa que não teve muito estímulo em casa para seguir esse caminho. “Eu sinto muito por ser pouco acompanhada pelos meus parentes. Quem mais vem assistir as minhas apresentações é a minha avó e o meu pai. Às vezes, minha mãe vem. Houve muita resistência no início”, reconhece. Porém, Shirlei confidencia que não se sentiria completa se não fizesse arte. “Até hoje é um sacrifício muito grande estar no teatro e ter uma relação com biologia. Eu passo o dia na universidade e venho direto para o teatro. Minha mãe acha que é loucura. Na realidade, eu sei que, se eu parar, não vou conseguir ser completa”. 


A professora Shirlei

“Adoro educação! Sou louca, fissurada. Acho que eu quero ser professora. Já fui professora, passei um ano ensinando, sou louca pelos meus alunos. Quero continuar sendo professora”. É assim, de forma entusiasmada, que Shirlei fala de suas experiências em sala de aula. Ela deu os primeiros passos no magistério através de um projeto da universidade, o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência da UFBA (PIBID-UFBA). Foi professora do Colégio Estadual Doutor Luiz Viana Filho, instituição pública sediada na cidade de Simões Filho. “Foi um dos lugares que eu me encontrei na licenciatura. Era uma coisa prazerosa”, admite. Na sua breve carreira, passou também por uma instituição particular, o Colégio Superior, em Cajazeiras. 

Shirlei  Sanjeva: "A arte é o meu fôlego". Crédito: Raulino Júnior


Bando e leitura

Em março deste ano, Shirlei foi selecionada para integrar a Oficina de Performance Negra, promovida pelo Bando de Teatro Olodum. Já participou de duas mostras e se prepara para estrear um espetáculo que vai finalizar as atividades da empreitada. Quando fala da experiência, faz questão de render elogios: “Pense numa experiência incrível de troca, de reconhecimento? A cada momento eu me reconheço mais. Mais negra, mais mulher, mais lutadora dessas causas. Reconheço que eu não posso virar o rosto ou deixar de lado. A gente tem mestres incríveis. É uma escola. Eu sou uma pessoa privilegiada em estar aqui. Eu estou muito feliz. Acho que contribuiu muito pra minha vida. Eu sempre falo: não vou sair daqui da mesma forma que entrei. Sou uma Shirlei antes do Bando e uma Shirlei depois do Bando”.

A passagem pelo grupo dirigido por Márcio Meirelles também lhe aproximou da obra de Carolina Maria de Jesus. Shirlei está lendo Quarto de Despejo: diário de uma favelada, um clássico da escritora mineira. “Eu nunca tinha tido a oportunidade de ler o livro inteiro. Conhecia alguns trechos”. No futuro, certamente, a própria Shirlei pode ser objeto de pesquisa de alguém. Vamos torcer!


Para quem (ou para quê) ela não destina o sorriso...

Não destino o meu sorriso para a injustiça, o racismo, a homofobia, para toda essa descaracterização do humano mesmo. Porque a gente acaba descaracterizando com toda essa agressividade que a gente lança de um para o outro, como forma de preconceito, como forma de discriminação, como forma de agressão Essa coisa de fazer minoria. Fazer minoria a mulher, fazer minoria o negro, sendo que são pessoas que têm a mesma capacidade física e psicológica, muitas vezes. Eu fecho a cara mesmo.


  •     O que dizem sobre ela... 


Romero Mateus
Crédito: Heder Novaes



“Para falar da princesa Sanjeva, resgato uma das minhas músicas, em que ela foi a inspiração e será a eterna protagonista: ‘Chegou, sem avisar. Me trouxe o sol, sorriso flor; me trouxe o mar, azul luar; anunciou o vermelho amor. Vem, me faz seu bem; menino seu, sou teu Mateus; me faz sonhar, perder razão; medo se foi, ficou nós dois’”. 





Crédito: Autorretrato

Taise Souza


“Quando penso em luz, penso em Shirlei. Ela consegue reunir um misto de qualidades do qual, se todos tivessem um pouco do que ela possui, o mundo seria muito melhor! Existem pessoas que se adaptam ao lugar, Shirlei faz com que o lugar e o que nele se encontra, adaptem-se a ela! Alegre, sincera, apaixonada, bondosa, linda.... carrega consigo muito amor, o que a torna muito especial. Sortudos são os que a têm por perto e têm o privilégio de tê-la como amiga!”. 





Série Perfis do Desde| Ficha Técnica:
Convidada: Shirlei Sanjeva
Data da entrevista: 15/8/2014
Local: Passeio Público (Salvador-BA)
Idealização/produção/texto: Raulino Júnior

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