segunda-feira, 30 de junho de 2014

A enigmática Adriana Lisboa

Direta, discreta e com opiniões contundentes, Adriana Lisboa é a própria representação da inconstância e da persistência

Adriana Lisboa posa numa atmosfera barroca e enigmática na área de lazer do Edifício Garibaldi Prime. Crédito: Raulino Júnior

Ela não faz tipo, é direta e, apesar de se considerar prolixa, não é. Aos 25 anos e dona de uma personalidade forte, Adriana de Sá Lisboa, como consta no registro, é uma caixinha de surpresas: formou-se em Letras (com habilitação em língua inglesa e respectiva literatura) pela Universidade Católica do Salvador (UCSal) e cursa o Bacharelado Interdisciplinar em Artes na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Quando concluir o curso, vai concentrar em Design. Trabalha na Avante Produções Audiovisuais, auxiliando o amigo e diretor da empresa, Felipe Ferreira, na parte de produção e criação. Em 2010, trabalhou num centro cultural e participou de algumas peças produzidas pelo espaço. Atualmente, mantém distância do teatro e tem o sonho de ser estilista. “O teatro não é uma prioridade na minha vida. É algo para complementar os meus ideais, a minha convicção de arte. É uma distração”. Por outro lado, tornar-se estilista é uma vontade que cresce a cada dia. “Penso em várias criações e desenho algumas. Já levei um desenho para a costureira fazer. Foi uma peça para mim, mas eu penso nisso comercialmente”, planeja. Nascida em Buriti dos Lopes, no Piauí, Adriana radicou-se em Salvador ainda na primeira infância. Não sabe ao certo se foi com dois ou três anos de idade, a única certeza é a de que se considera baiana. “Não tenho nenhuma lembrança consistente do lugar onde nasci. Praticamente, não conheço nada de lá”. Da Bahia, não gosta das ladeiras, mas não recusa um acarajé. Segundo Adriana, todo mundo pergunta sobre uma possível ascendência nipônica, mas ela nunca se interessou em pesquisar tal questão. “Todo mundo me pergunta isso. É incrível! Eu falo que não, que sou do Piauí. O pessoal de lá tem uma mistura, mas eles falam que a minha mistura foi além. Eu posso ter vindo de lá [do Piauí], mas não pareço totalmente de lá. Nunca pesquisei na minha árvore genealógica sobre essa coisa da característica nipônica”.


“Quero trabalhar com arte”

Adriana é filha única de Manoel Lisboa, aposentado da Polibrasil, fábrica de polipropileno de Camaçari; e de Maria
Ela quer ser da arte. Crédito: Raulino Júnior
Aparecida Sá, dona de casa e artesã. Na família, apenas ela leva a arte adiante. “Meus pais têm sensibilidade e entendimento, mas isso [o envolvimento com arte] não foi mais forte para eles como é para mim”, admite. E é tão forte para ela que, a certo ponto da entrevista, desabafa: “Eu quero trabalhar com arte. Alguma coisa assim que eu me identifique e me destaque”. Cinema? “Me instiga. Mesmo achando que, se eu fizesse, preferia uma coisa totalmente fora dos padrões. Faria uma coisa muito louca. Se alguém viesse com um projeto fora de série, mirabolante, eu faria. Me desprenderia totalmente da questão do belo, do bonito, do feio”. Adriana já fez dois curtas para trabalhos de universitários. E TV? “Acho que não me encaixaria nos padrões, tanto física quanto mentalmente. TV é uma coisa brutal, maquiada, comercial. Não gosto. Acho que não aproveitaria o meu talento. As pessoas se encaixam naquele modelo, fazem parte daquele maquinário, sendo só uma peça. E exploram aquela peça”, critica.
 



Magistério, literatura e música

Adriana Lisboa: a estrela da hora. Crédito: Raulino Júnior
Adriana fez o curso de Letras no intuito de enriquecer os próprios conhecimentos, não gostava da graduação. Tinha facilidade com inglês e gostava de literatura. Nunca pensou em atuar em sala de aula. “Não tenho paciência para ensinar. Também não consigo ser objetiva. A atividade exige isso”, pontua. Ela acha que lê muito pouco e atribui isso aos novos tempos. “É da minha cultura. Nasci num ambiente em que os jovens tinham várias informações para se distrair”. Mas a faculdade despertou o interesse em conhecer a obra de alguns autores, principalmente os modernistas. “Eu gosto muito de Mário de Andrade e de Drummond também. A poesia dele parece que é uma coisa e é outra. É muito profunda, muito densa. Adoro Clarice Lispector por aquela coisa da alma, do oculto, do abstrato. Eu viajo”. Ainda nessa seara, Adriana cita o pré-modernista Lima Barreto como um de seus favoritos. “Gosto dele pela questão social. Ele era uma pessoa a frente do seu tempo”.  Atualmente, está tentando acabar a leitura do livro A pele de onagro, do escritor francês Honoré de Balzac. “Todo dia leio uma página. Sou muito distraída, tenho esse defeito”. Um livro que marcou a sua vida foi A hora da estrela, uma das obras mais populares de Clarice Lispector. “É um livro muito questionador. Eu gosto muito de Macabéa”.

Ao falar de música, Adriana se considera bem versátil. “Na adolescência, gostava de rock’n’roll, de pop, até reggae eu ouvia. Eu me considero bem versátil. Se você me chamar para o seu aniversário e tiver tocando pagode lá, claro que eu não vou embora ou vou ficar reclamando, mas não ouço pagode e axé em casa. Também não gosto de forró. Não me atrai. Não me faz viajar. Hoje em dia, escuto mais músicas instrumentais e as antigas de Caetano”.


Inquietações, mundo ideal e marca

A cidadania de Adriana grita quando ela se depara com falta de educação. “Por exemplo: eu estou num ônibus, uma pessoa toma refrigerante e joga a lata pela janela; está fumando, joga a bituca do cigarro pela janela. Ela acha que aquilo ali é o quintal da casa dela? Nem se fosse”, reclama. Alienação também a incomoda. Ela acha que o mundo ideal vai ser conquistado quando cada pessoa mudar a postura diante dele. “Quando a pessoa entender que faz parte de um todo existencial e que deve fazer o seu papel, acho que já é um caminho para um mundo ideal”.
"Eu sou um enigma de mim mesma", afirma Adriana.
Crédito: Raulino Júnior

E para o mundo, ela quer deixar a sua marca, a sua história. “Quero deixar a marca de que fui um ser sujeito da minha vida. Independentemente de acharem aquilo certo ou errado, eu quero ter uma conduta moral comigo mesma, de agir na vida, agir no mundo, contribuir no mundo de uma forma minha, não de uma forma bitolada ou maria vai com as outras. Eu quero ser eu. Quero ter minhas convicções e atuar no mundo até a minha morte”. Adriana sabe bem quais são as suas convicções, mas tem dificuldade de se definir. “Digamos que eu seja um enigma de mim mesma. Ainda estou tentando saber quem sou eu. Não sei se vou saber um dia”, reflete. Enquanto ela não descobre, a gente vai tentando desvendá-la.


A contribuição da arte para a sociedade...

Acho que é uma contribuição de caráter existencial, de a pessoa saber em que espaço ela está, em que contexto se encontra, como ela foi educada e o que é que ela é. A arte provoca vários questionamentos.

  •  O que dizem sobre ela...   


Crédito: Autorretrato

Felipe Ferreira

"Adriana é um oásis de inspiração para qualquer artista, em meio ao solo desértico que prevalece nos tempos de superfícies tão rasas. O que mais me encanta, ao longo dessas quase duas décadas de parceria, é esse poder camaleônico à flor da pele que ela tem. Ela se entrega, se transforma, se recria. A cada desafio, a cada personagem, a cada mudança. Sua sensibilidade para perceber os subtextos de cada palavra e as entrelinhas de cada ação instiga e faz instigar".  








                                                                                                                  
Crédito: Autorretrato
Cecília Mélo

“A reação entre os elementos Pr (Pragmatismo) e Hu (Humor) dá origem à composição Adriana Lisboa. Se expostas a altas temperaturas, muito provavelmente haverá vítimas de uma potente explosão. Portanto, atenção, melhor conservar qualquer derivado em ambientes cuja temperatura seja fresca e amena. Brincadeiras à parte, apelemos para a ‘quase objetividade’. Há alguns anos, o teatro uniu Adriana e eu, subitamente. Nós o traímos, o abandonamos, mas a nossa parceria permanece até então. Não sei exatamente o que se espera que seja dito em relação a ela, mas seguem algumas dicas em forma de palavras soltas: minúcia, terra, dever, inflamável, virgem, graça, energia, áries, tenaz, fogo, (im)paciência, devotada. Entendam como preferir!”.








Série Perfis do Desde| Ficha Técnica:
Convidada: Adriana Lisboa
Data da entrevista: 6/6/2014
Local: Edifício Garibaldi Prime, Ondina (Salvador-BA)
Idealização/produção/texto: Raulino Júnior
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2 comentários:

  1. O que dizem sobre ela...
    Não vou dizer nada sobre ela, não no sentido de tentar desmistificar ou enumerar qualidades, que são muitas. Conto uma memoria que deve ser bem minha: Ela recém chegada a Salvador e eu um já morador de dez anos, ela um pouco arredia e eu a cortejado. Um dia chego em cada de Manoel e Aparecida, ela vem e sem anunciação me abraça meio sem jeito, mas ali já certo que nossa amizade quase muda estava sacramentada.

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    Respostas
    1. Obrigado por compartilhar tal memória com a gente, John. Continue visitando este espaço. É importante para mim. Grande abraço!

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