quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Caminhos do jornalismo cultural


O crítico é um artista frustrado? Daniel Piza (1970-2011) achava que não. De acordo com ele, Marcel Proust, Henry James e Bernard Shaw foram grandes criadores e grandes críticos. Sendo assim, tal tese não se sustenta. Em seu livro Jornalismo Cultural, da Editora Contexto, o jornalista traça um histórico sobre essa vertente jornalística, relata experiências próprias e dá dicas àqueles que pretendem se enveredar pela editoria de cultura. Autor de 17 livros, entre eles uma biografia de Machado de Assis (Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro), Piza trabalhou em importantes veículos da imprensa nacional, como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e a extinta Gazeta Mercantil. Em dezembro de 2011, faleceu em Minas Gerais, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

O primeiro capítulo, Pontos luminosos, é, praticamente, uma aula de história sobre os caminhos do jornalismo cultural. O destaque fica na parte em que Daniel fala sobre a prática no Brasil. Ele afirma que a figura do crítico profissional é uma tradição em solo brasileiro e exemplifica citando Lima Barreto, que escreveu As recordações do escrivão Isaías Caminha para criticar o cotidiano dos profissionais de jornalismo. Mário de Andrade, Drummond, Machado de Assis e Carlos Heitor Cony também são lembrados pelo autor de Jornalismo Cultural.

A tônica do segundo capítulo, De polos e tribos, é a dicotomia entre elitismo e populismo. Para alertar o leitor e desmistificar qualquer preconceito, Daniel Piza aconselha: “Qualquer forma de qualificação prévia, assim, é complicada. A cabeça tem de estar aberta ao que se dispõe a assimilar, venha de onde vier. Ao mesmo tempo, pode e deve confiar na experiência; quanto mais se adquire ‘olho’, como se diz na pintura, maior é a capacidade de pré-selecionar o que se irá consumir. A filtragem é mais simples justamente porque os critérios estão mais nítidos, e não o contrário”, p. 50. Ou seja, quem trabalha na editoria de cultura não deve deixar o gosto pessoal sobrepor o que acontece na realidade. A cabeça deve estar aberta.

No terceiro capítulo, Contraclichê, Piza fala sobre alguns gêneros jornalísticos, como perfis e entrevistas, dá dicas para o “jornalista cultural” (é o termo que o autor usa) escrever reportagens, aborda os preconceitos que o profissional que trabalha na editoria de cultura sofre (a suposição de que trabalha menos e de que não gosta de notícia, porque muitos profissionais fazem o “jornalismo de agenda” (divulgação de shows, espetáculos teatrais, exposições e etc.) e da ilusão da doce vida). O fato de o jornalista confundir afinidades pessoais com avaliações estéticas e atacar a pessoa em vez da obra é visto por Piza como “pecado” de quem atua na área de cultura. O autor não deixa de falar da prática do jabá e esclarece: “Não existe (nem deveria existir) uma regra que impeça que críticos e criticados sejam amigos, para além de seus contatos profissionais. Mas é bom, caso aconteça essa amizade, que se deixe claro, para ambos os lados, de que há esses dois níveis de relacionamento – e, se o desentendimento profissional perturbar o pessoal, azar da amizade”, p. 91-92.

O quarto e último capítulo da obra, Aqueles foram os dias, é o momento em que Piza relata algumas experiências próprias, dando ênfase ao trabalho realizado à frente do caderno Fim de Semana, da Gazeta Mercantil. Em seguida, apresenta uma bibliografia comentada e decreta: “O jornalista cultural tem um dever nº1 consigo próprio: não ter preguiça de ler”. O livro de Daniel é um bom começo e uma boa introdução sobre o assunto.



Fonte: PIZA, Daniel. Jornalismo Cultural. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2011. (Coleção Comunicação), 143p.
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