segunda-feira, 4 de março de 2013

O jornaleiro cabe no jornal?

Atuando em banca de jornais e revistas ou sob o sol, jornaleiros de Salvador se mostram insatisfeitos com atuais condições de trabalho

Raulino Júnior


Florival Santos, da Banca King's, localizada no Largo do Campo Grande, em Salvador. Foto: Raulino Júnior


Se alguém perguntasse a você se os jornaleiros participam da atividade jornalística, qual seria a sua resposta? Pois é, muita gente pode até não estar atenta para isso, mas os jornaleiros, assim como os jornalistas, têm importante papel dentro do processo de disseminação de notícias. Esses profissionais fazem parte da cadeia de circulação de jornais e revistas. São eles que fazem a informação chegar, literalmente, até os cidadãos.
Os jornaleiros estão sempre à disposição de pessoas ávidas por notícias e informações. Eles trabalham, em média, de cinco a 15 horas por dia, a depender da categoria. Caso sejam jornaleiros ambulantes (também conhecidos como gazeteiros), a média é de cinco horas de trabalho. Atuando como donos de bancas, a carga horária pode chegar até a 15 horas. E é um esforço que, atualmente, segundo afirmam, não tem valido a pena. “O que está salvando banca de revistas são recargas de celular, balas, refrigerantes e água; revistas e jornais têm vendido muito pouco”, desabafa Florival Santos, 40 anos, dono da Banca King’s, localizada no Largo do Campo Grande, em Salvador.
Florival Santos, da Banca King's: "Revistas e jornais têm
vendido muito pouco". Foto: Raulino Júnior
Na profissão há 15 anos, Florival diz que a queda nas vendas de periódicos das bancas se deu, principalmente, por causa da concorrência com supermercados, farmácias e internet. De fato, com o advento das novas tecnologias e com as vendas em outros pontos fixos, fica difícil atrair leitores diante de tantas alternativas. Atualmente, além de poder ler jornais pela web, as pessoas têm as informações na palma da mão, através de celulares, smartphones e tablets.
O Sindicato dos Jornaleiros da Bahia corrobora o que foi dito por Florival. De acordo com o presidente da entidade, Walter Ferreira, 69 anos, a grande dificuldade é a falta do pagamento sindical por parte de supermercados e farmácias. “Esses segmentos passaram a receber registro de jornais sem nenhum compromisso com a atividade do jornaleiro, que tem reconhecimento”, lamenta.
Walter Ferreira, presidente do Sindicato dos Jornaleiros da
Bahia. Foto:  Raulino  Júnior
Para Florival, a ação (ou inação) do Sindicato dos Jornaleiros contribui bastante para que a classe não tenha tanta força. “Acho que a atuação do sindicato fica a muito a desejar. Em época de carnaval, por exemplo, eu tenho sempre que mudar a banca de lugar, ir para o Teatro Castro Alves. Solicito a ajuda da entidade e nunca obtenho resposta favorável. Além disso, os jornaleiros não são unidos. Greve de ônibus todo mundo para; de jornaleiro, não”.


Jornaleiros ambulantes - A realidade dos jornaleiros ambulantes é ainda mais cruel. Embora trabalhem cerca de quatro a cinco horas por dia, eles ficam expostos ao sol e não recebem nenhum equipamento de proteção individual, como protetor solar e sapatos. Segundo Adilson Magalhães, 38 anos, responsável pelo setor de circulação do jornal A Tarde, os gazeteiros que trabalham para a empresa recebem fardamento e lanche. Contudo, a farda se resume a uma camiseta com a logomarca do impresso. Quando se coloca em pauta o aspecto salarial, a situação é ainda pior: os gazeteiros recebem 25% em cima da vendagem do dia. “No A Tarde, além da comissão, os profissionais têm uma bolsa, referente ao volume de venda”, afirma Adilson.
O Desde procurou o jornal Correio a fim de saber sobre a política de gestão da empresa com os jornaleiros e, depois de muitas tentativas, Welter Arduini, gestor de vendas da área de Mercado Leitor do periódico, deu informações evasivas. De acordo com Welter, os gazeteiros do Correio são contratados por empresas terceirizadas e o jornal acompanha, apenas, o desempenho de vendas. Nesse sentido, ele disse que não sabe informar como ocorre o pagamento do pessoal, bem como sobre as condições de trabalho.
Ao sair às ruas para entrevistar os gazeteiros, o Desde teve dificuldade de encontrar um profissional disposto a conversar. “Estou trabalhando, não tem como parar”, disse um; “Agora não posso”, desculpou-se outro. Depois de dias de procura, o blogue encontrou uma gazeteira que não teve resistência em falar da própria atividade profissional: Karla*, 57 anos, que trabalha pelo A Tarde há cinco, criticou as condições de trabalho oferecidas e mostrou insatisfação no que diz respeito ao salário. “Nós só recebemos o lanche — iogurte com biscoito — no final da jornada (que começa às 5h), por volta das 10h. Além disso, ganho, apenas, R$ 0,15 a cada jornal vendido. No final do mês, embolso cerca de R$ 200 a R$ 300, a depender da vendagem. Mas nem sempre eu vendo todos os jornais”, conclui. Para incrementar o orçamento, ela trabalha também como diarista e divide as contas de casa com o marido, que é pedreiro. “Ainda bem que os meus dois filhos já estão casados”, fala com alívio. Ela trabalha como gazeteira num dos pontos mais movimentados da capital baiana e pretende, no futuro, abrir o próprio negócio. “Alguma coisa que ganhe dinheiro, na área de vendas também”, planeja.

* O pseudônimo foi usado para proteger a identidade da gazeteira.
Observação: Esta matéria foi originalmente produzida para a disciplina Oficina de Jornalismo Digital, ministrada pela professora Suzana Barbosa, da Faculdade de Comunicação da UFBA.
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