quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Literatura com "L", de like

Mesa de debate na FLIPELÔ discute o papel da internet na produção literária da atualidade
Clarice Freire, Renato Cordeiro (no centro) e Saulo Dourado: literatura em tempos de internet. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior 

Com quantos "likes" se faz uma literatura? Essa foi a pergunta que deu título à mesa de debate promovida hoje, no Teatro SESC-SENAC Pelourinho , dentro da programação da FLIPELÔ (Festa Literária Internacional do Pelourinho), que está no seu segundo ano. Mediado pelo radialista Renato Cordeiro, o bate-papo teve a participação da escritora pernambucana Clarice Freire e do escritor baiano Saulo Dourado. Os dois autores ganharam visibilidade no campo literário usando a internet como espaço para divulgação de seus escritos. Saulo usava o Orkut para escrever contos e enviar como scraps (o que ele chamou de escrepo-contos) para as pessoas adicionadas no seu perfil. Além disso, reunia os textos produzidos no blog Depósito do [Escrepo]. No ano passado, lançou o seu mais recente livro, o romance juvenil Amar é uma conexão discada, pela editora Caramurê. Já Clarice utilizou o Facebook para colocar em prática a sua veia literária. Em 2011, ela criou a página Pó de Lua. A identificação do público com as suas poesias desenhadas foi tão grande que, em 2014, ela lançou o seu primeiro livro, que foi batizado com o mesmo nome da página. A obra foi publicada pela editora Intrínseca. Em 2016, veio o segundo, lançado pela mesma editora, chamado Pó de Lua nas noites em claro.

Para Saulo, hoje em dia, todo mundo é influenciado pela cibercultura de alguma forma. Com a literatura, não seria diferente. "A gente não consegue mais pensar numa vivência sem likes, sem curtidas. A literatura não ia escapar disso", pontua. Clarice, por outro lado, acredita que não só de likes vive um autor. "Like não faz literatura, quem faz literatura é o autor. O like foi um trampolim para as pessoas conhecerem a minha literatura". Questionados pelo Desde sobre se a gente vive numa era em que os likes são determinantes para consagrar novos autores, Saulo e Clarice foram incisivos nas respostas: "Eu não acredito que eles sejam determinantes, porque muitas coisas que têm muitos likes podem não dar certo no meio literário, podem não dar certo em livro, podem ser que não tenham a qualidade tão boa, literariamente falante. Então, determinantes não é. Acho que o trabalho precisa ter uma boa qualidade, o autor precisa ser original. Precisa ter, de fato, uma qualidade literária; porque senão, não dura muito, a gente sabe disso. Mas os likes têm o seu papel, têm o seu valor, porque eles conseguem fazer com que o trabalho fique mais conhecido, mais visto, ganhe visibilidade e, ganhando visibilidade, facilita com que as editoras também tenham até mais acesso e segurança na hora de acreditar naquele trabalho, porque já existe um público. O meu trabalho é uma prova disso. O likes ajudaram muito para que ele fosse visto. Mas não é, necessariamente, porque o trabalho tem muitos likes, que ele vai dar certo no meio literário", avalia Clarice. "A leitura é a grande consequência do trabalho que a gente faz, da arte que a gente cria. O like como finalidade, em algum momento, aquela criação e aquela consequência vão se embolar e a criação pode até ser comprometida. Mas, nessa era, o like é como elogio, é como um abraço, é como aperto, é como'adorei'. Nisso, vai valendo", afirma Saulo.

FLIPELÔ

Em sua segunda edição, a Festa Literária Internacional do Pelourinho começou no dia 8 e segue até 12 de agosto. Neste ano, o tema é "A amizade é o sal da vida", frase de Jorge Amado, e homenageia o escritor João Ubaldo Ribeiro, celebrando a amizade dos dois. A programação completa está disponível neste link: www.flipelo.com.br.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Sonoridades compartilhadas nas Américas Negras e História da Arte são temas de cursos que serão ministrados em Salvador

Sons das Américas Negras e História da Arte no Ocidente estarão em pauta na capital baiana
Cartaz de divulgação do curso traz a reprodução da tela neoexpressionista Philistines (1982), de Jean-Michel Basquiat
Por Raulino Júnior 

Os amantes de música e de arte que moram em Salvador terão a oportunidade de se aprofundar um pouco mais nessas temáticas: em agosto, o historiador Vítor Queiroz vai ministrar os cursos Som de Preto: histórias e sonoridades compartilhadas nas Américas Negras (de 20 a 24 de agosto, das 9h às 13h) e Uma Introdução à História da Arte (de 27 a 31 de agosto, das 9h às 13h), na Aliança Francesa, que fica na Ladeira da Barra (Avenida Sete de Setembro). Os interessados deverão fazer o investimento de R$ 100 (para cada curso específico) ou R$ 150 (para os dois). Quem quiser fazer aulas avulsas, vai ter que desembolsar R$ 30 por dia (carga horária: 4h). Para saber mais informações sobre os cursos e sobre a inscrição, basta entrar em contato pelo telefone (71) 99123-9050 (WhatsApp).

Em entrevista concedida ao Desde, por WhatsApp, Vítor falou sobre o que pretende abordar em cada curso e sobre o objetivo das propostas. "No Som de Preto: histórias e sonoridades compartilhadas nas Américas Negras, pretendo abordar as histórias compartilhadas que se materializam nas sonoridades do atlântico negro. Ou seja, vai ser um passeio pela música do Brasil, mas também da Argentina, do Caribe e dos Estados Unidos, focando temas que são transversais a todos esses lugares (como, por exemplo, o corpo, a dança e a sexualidade nessas músicas afro-atlânticas). Uma tese que está por trás desse curso é de que o atlântico e o atlântico negro têm uma série de experiências em comum e essas experiências são também comunicadas. Então, isso tem a ver com tudo: movimento negro, política e identidade negra nas Américas. Quem tiver interessado em política negra, negritude, movimento negro e religiões negras na América, é bem-vindo".

Já no curso de Introdução à História da Arte, Queiroz afirma que vai focar nas artes visuais. "Vou trabalhar com períodos artísticos, com criadores, principalmente de artes visuais (pintura e escultura).  Na verdade, a gente vai percorrer vários períodos da arte ocidental. Então, vamos ficar na arte da Europa e de suas extensões. Ou seja, os países que foram colonizados pela Europa e compartilham uma cultura europeia, incluindo o Brasil, incluindo a América. O curso tem uma tese central, um argumento central, que é o seguinte: a gente vai investigar como surgiu essa ideia de autonomia da arte e a ideia de artista. Na verdade, vou mostrar para os alunos que isso não é natural, isso não foi sempre assim, muito pelo contrário. Vou contextualizar bem histórica e antropologicamente, para também não ficar solto. Então, vamos trabalhar com os grandes mestres, Goya, Velázquez, Leonardo da Vinci, Picasso etc., mas também com uma série de outros artistas que não são conhecidos e que eram tão ou mais importantes em suas épocas", pontua.

Quem é Vítor Queiroz
Foto: reprodução do site da Uniccamp

Além de historiador, o soteropolitano Vítor Queiroz é mestre em História Social da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutor em Antropologia, também pela Unicamp. A sua tese se debruçou sobre a obra de um dos mestres da música brasileira: Dorival Caymmi. Intitulada A Pedra que Ronca no Meio do Mar: baianidade, silêncio e experiência racial na obra de Dorival Caymmi, a pesquisa mostrou a atmosfera da "mitologia caymmiana". Em janeiro deste ano, Vítor ministrou o curso livre de Música Popular Brasileira oferecido pelo Centro de Formação em Artes (CFA), da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), em Salvador. Na ocasião, o Desde fez uma cobertura exclusiva e produziu a série de reportagens Música Popular Brasileira em Curso, que pode ser lida neste link: MPB em Curso.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

6ª edição da oficina de uso de blogs por "focas" será realizada neste sábado, 30 de junho

Imagem: divulgação
Por Raulino Júnior 

A oficina Uso de blogs por "focas" como experimento para a prática jornalística chega à sua 6ª edição, na Biblioteca Central do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris). Neste sábado, 30 de junho, das 9h às 12h, estudantes de Jornalismo e profissionais que estão no início da carreira serão estimulados a criar blogs para servir como portfólio de trabalho. A atividade é gratuita, com direito a certificado. Para participar, basta enviar e-mail para viva.bpeb@fpc.ba.gov.br e solicitar a inscrição. As vagas são limitadas.

Na ocasião, os participantes terão informações sobre a origem dos blogs e suas principais características, o uso eficaz da ferramenta no jornalismo, importância do uso das tags nos posts e da produção multimídia. A série de oficinas faz parte das comemorações pelos sete anos do Desde, blog de experimentações jornalísticas com o viés cultural.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

#DesdeEmTrânsito: 50 anos da Pedagogia do Oprimido

Moacir Gadotti durante conferência no Virtual Educa. Foto: Raulino Júnior

O XIX Encontro Internacional Virtual Educa, evento promovido pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e a Secretaria Geral da Virtual Educa, tem como objetivo principal promover reflexões acerca da relação entre educação e tecnologia, a fim de dinamizar as práticas pedagógicas. No Brasil, o encontro está acontecendo em Salvador, no Centro Estadual de Educação Profissional, Formação e Eventos Isaías Alves. Na tarde de hoje, Moacir Gadotti ministrou a conferência 50 anos da Pedagogia do Oprimido, na qual analisou e apontou a importância da obra de Paulo Freire, publicada pela primeira vez em 1968, para a educação. O Desde esteve lá e fez uma cobertura via Twitter (@RaulinoJunior), para mais uma edição do especial #DesdeEmTrânsito. Veja o resultado.

A conferência começou no horário previsto, às 14h30. Moacir Gadotti é, na verdade, Presidente de Honra do Instituto Paulo Freire. Desde já, pedimos desculpas pelo equívoco.

Mesmo sendo uma publicação de 50 anos, para Gadotti, a obra de Paulo Freire ainda tem muito o que contribuir para a educação.


Ainda bem, não é? Um evento que fala de tecnologia não poderia deixar de ter uma intérprete. Mais que uma obrigação, é um direito!

O professor leu alguns trechos emblemáticos do livro e analisou cada um, sempre trazendo para o contexto histórico atual.

No seu discurso, Gadotti criticou a mídia. Ele está certo?

Essa foi a reflexão que Gadotti fez quando começou a falar sobre a relação entre educação e política.

Alguém duvida?!

Um ideal...

Muito bom isso! Gadotti enfatizou que a ideia é dar visibilidade a todo tipo de opressão e, assim, tentar resolvê-la.


Com certeza! O Método Paulo Freire frutifica por aí!

Aplaudido de pé! Gadotti é muito querido pelos educadores. Até a próxima edição do #DesdeEmTrânsito!

Todas as fotos foram feitas por Raulino Júnior.

sábado, 26 de maio de 2018

Roda de conversa sobre o Dia da África destaca a pujança do continente

Evento promovido pelo Olodum reuniu lideranças negras de Salvador
Participantes da Roda de Conversa África Atual. Foto: Raulino Júnior

A Roda de Conversa África Atual, que aconteceu na tarde de ontem, na Casa do Olodum (Pelourinho), teve como objetivo propor uma reflexão acerca da África de hoje, bem como fazer um paralelo com a realidade brasileira. A reunião foi idealizada em comemoração pelo Dia da África, celebrado em 25 de maio, e contou com a participação de João Jorge Rodrigues (presidente do Olodum), Zulu Araújo (diretor da Fundação Pedro Calmon), Carla Pita (conselheira do Olodum e educadora), Luciane Reis (publicitária e idealizadora do MercAfro), Aquataluxe Rodrigues (administradora, produtora cultural e integrante da Comissão de Juventude do Olodum), Kátia de Melo (fundadora da Escola Olodum), Tonho Matéria (cantor, compositor, gestor cultural, publicitário e mestre da capoeira) e Abraão Macedo (empresário e palestrante motivacional). A Roda de Conversa foi a segunda da série de ações pensadas para comemorar o Dia da África no Centro Histórico de Salvador. A primeira foi um almoço no restaurante Cantina da Lua, em solidariedade a Clarindo Silva, empresário e agitador cultural que teve os bens do estabelecimento penhorados devido a uma dívida trabalhista.

Rafael Manga, mediador do encontro e um dos organizadores do evento, disse que a iniciativa nasceu para trazer outros diálogos, estrategicamente ausentes das pautas da mídia tradicional, para a internet, aproximando do público jovem. "O Olodum é um grupo cultural que tem diversas ramificações. Entre elas, a TV Olodum. Essa proposta inicial em Dia de África é da TV Olodum, a fim de abrir espaço para outros diálogos, uma nova forma de se comunicar com a sociedade, trazer essa temática para dentro da internet. Sobretudo, com essa juventude que está antenada nos blogs, os digital influencers. Às vezes, a gente fala que a juventude não tem interesse, talvez ela não tem acesso. Nós estamos entrando nesse processo, nesse meio de comunicação, para dialogar com as diversas formas de juventude e da sociedade civil em geral. O Dia de África é um dia muito importante para a sociedade brasileira, sobretudo pela colaboração que a África tem aqui. Esse momento de corrupção, esse momento de democracia é uma coisa muito atual".

Rafael Manga: "O Dia de África é um dia muito importante para a sociedade brasileira". Foto: Raulino Júnior

A Roda de Conversa foi  aberta por João Jorge, que destacou a importância de pensar um pouco na África contemporânea: "Essa conversa é para pensar um pouco sobre os problemas atuais da África contemporânea, dos nossos problemas e começar abrir o caminho de uma discussão que não seja só da herança africana bem antiga. Os países africanos vivem aqui, ao lado da gente, que tal a gente saber um pouco mais de Angola, da África do Sul, de Gana, da Nigéria, do Benin, do Marrocos?", provocou. Para Zulu Araújo, embora alguns países africanos apresentem problemas semelhantes aos do Brasil, é preciso avançar nesse olhar que se tem da África: "É surpreendente como alguns países africanos têm problemas tão semelhantes quanto os nossos. Eles não estão em 1500 como muitos de nós podemos pensar ou imaginar. Eles têm problema na área da agricultura, da violência, da saúde, do trabalho, do emprego, que é como também o Brasil vive, como boa parte do mundo vive. Então, não dá pra gente se relacionar com o continente africano com o olho em 1500. Não dá pra gente celebrar o Dia da África com o olho em 1500, porque, se a gente continuar fazendo isso, nós estaremos, na verdade, nos aprisionando no século 15, século 16. E esse seculo 15/século 16 é o seculo da colonização. São séculos onde o continente europeu, praticamente, aprisionou e quase destruiu o continente africano. Seja pela exploração predatória que fez naquele continente, levando grande parte dos seus minérios, do seu ouro, do seu diamante; mas, principalmente, levando o seu principal ativo, que foram os seres humanos.Mas concordo integralmente com a afirmação de João Jorge: não adianta a gente ficar se lamentando, não adianta a gente ficar remontando esse passado, sem entender que nós temos o presente para viver e para tocar. Essa iniciativa de a gente dialogar com a África atual significa a gente entender que a África atual, assim como o Brasil, precisa trilhar o caminho do desenvolvimento, o caminho do respeito à democracia, o caminho da diversidade, o caminho do respeito às religiosidades distintas, que brancos, negros, amarelos e indígenas possuem. Significa a gente, também, advogar e defender a cultura enquanto um elemento estratégico do desenvolvimento humano. O que nos faz seres humanos é a cultura, não é outra coisa".

Carla Pita trouxe para a Roda o exemplo de duas mulheres de sucesso do continente africano: Carmen Pereira (primeira mulher a presidir um país africano, a Guiné-Bissau) e Ellen Johnson (primeira mulher eleita no continente africano pelo voto). "É importante desconstruir falsas narrativas em relação ao continente africano no dia de hoje. No dia de hoje, nas redes sociais, tem muita gente compartilhando imagens, infelizmente, de uma África envolta pela fome, miséria, epidemias e existe uma África que nós conhecemos, que é uma africa tecnológica, que é uma África inventiva. Se eu não me engano, a tecnologia 3G chegou ao Brasil em 2008. Em 2005, Angola já tinha tecnologia 3G. O Brasil ainda tem uma visão minimalista em relação à Africa". A educadora ainda falou sobre os equívocos da imprensa brasileira na cobertura da epidemia do ebola. Kátia de Melo falou sobre a atuação da mulheres na gestão política, enfatizando o caráter empoderador disso: "As mulheres negras, as jovens principalmente, precisam entrar nesse espaço de disputa, porque é um espaço de empoderamento perfeito. É um espaço de empoderamento para o nosso modelo de sociedade, que é a democracia. Então, não tem outro caminho. A gente está em varias frentes de lutas, em vários caminhos, mas o espaço para o empoderamento, que vai produzir politicas publicas e definir as questões, é o do poder político", pontuou.

Da esquerda para a direita: Carla Pita, Aquataluxe Rodrigues e Luciane Reis. Foto: Raulino Júnior

Aquataluxe Rodrigues direcionou o seu discurso para os aspectos ligados à mulher preta. Nesse sentido, questões como representatividade e protagonismo da juventude negra e das jovens negras foram destacadas. Aquataluxe mostrou uma projeção na qual trazia perfis de africanas que são referências para mulheres negras de todo o mundo, como a rainha Nzinga Mbandi Ngola, Wangari Maathai (primeira mulher africana a ganhar o prêmio Nobel da Paz, em 2004), Phiona Mutesi (campeã de xadrez, em Uganda, em 2013) e Leila Lopes (Miss Universo de 2011). "A África reconhece os seus e a gente tem que aprender também a reconhecer as nossas. Porque nós reconhecemos os nossos, mas, às vezes, a gente esquece das nossas mulheres guerreiras que fizeram história e que precisam ser reverenciadas e lembradas o tempo todo. Não só por uma questão de igualdade, mas por uma questão também da importância da representatividade", reconheceu Aquataluxe. A administradora chamou a atenção também para a ideia ultrapassada que está no inconsciente das pessoas em relação à África: "A gente tem que tirar essa ideia de que esse continente, com esse grau de complexidade, com mais de cinquenta países, fala a mesma língua, tem a mesma moeda, tem o mesmo sotaque. Essa visão de uma juventude ou de uma população ou de um povo negro, sofrido, não é mais a África que a gente quer representar". Como falou muito de representatividade, Aquataluxe Rodrigues fez uma crítica positiva ao evento: "Eu gostaria muito que, nesse debate como o de hoje, a gente tivesse realmente uma pessoa da África aqui ou que tivesse morando no Brasil, para que essa roda de conversa sobre essa África atual fosse, de fato, representada", sugeriu.

Luciane Reis deu dicas e falou muito sobre empreendedorismo negro. "Nós empreendemos sozinhos. Diferente do empreendedor não negro, que vai ter um mentor dizendo a ele como é que o negócio caminha, como é que o negócio não caminha, que vai ter gente dando suporte psicológico, a gente constrói esse processo sozinho". E completou: "Nós também precisamos parar com essa concepção de achar que a gente só empreende numa perspectiva financeira. A gente não empreende somente na perspectiva financeira. A gente empreende também na perspectiva de disputa politica. A gente empreende no processo da disputa ideológica". Tonho Matéria falou sobre a primeira vez que visitou o continente africano, quando ainda era cantor do Olodum, e fez o seguinte alerta: "Muitas vezes, os elementos africanistas são renegados por nós mesmos qee fazemos parte até do Movimento Negro. Muitas vezes, a gente renega, não quer aceitar certos elementos, certos símbolos". Já Abraão Macedo destacou a importância do uso de bitcoin (moeda digital) pela comunidade negra, para acompanhar os avanços da tecnologia financeira. "Eu acho que a comunidade negra, sobretudo, a baiana, que é empreendedora, os blocos afro, que sempre foram modelos de empreendedorismo e organização, de resistencia organizada, devem pensar nisso. Por que a gente não começar a falar em bitcoins, a investir em bitcoins? A África atual está bem moderna, está à frente do Brasil e, dos cincos países hoje que pesquisam, que quererem saber, que estão investindo em bitcoins, três são africanos: Nigéria, África do Sul e Gana", revelou.

Dia da África

O Dia da África foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) depois que 32 chefes de estado se reuniram na Etiópia com o objetivo de tornar o continente independente do domínio europeu. Isso foi em 25 de maio de 1963 e, na ocasião, os líderes assinaram uma carta de fundação da Organização de Unidade Africana (OUA). A OUA foi a semente para a União Africana (UA) , que a substituiu, em 2002.

Card criado pela União Africana para comemorar o Dia da África em 2018. Imagem: divulgação

Em 2018, o tema escolhido pela União Africana para comemorar o Dia da África foi Ganhar a luta contra a corrupção: um caminho sustentável para a transformação de África. No final do debate, Zulu Araújo fez uma consideração muito pertinente para reforçar essa discussão: "Tem um elemento que deve estar presente na África atual, no Brasil atual, no mundo atual, que é um componente de ordem cidadã: chama-se democracia. Eu conheço, razoavelmente, alguns países africanos e temos que admitir que a democracia não se faz presente na maioria desses países. Isso faz com que a gente continue tendo, assim como no Brasil, uma elite extremamente desvinculada da maioria da sua população. A democracia possibilitará que avanços possam alcançar a maioria do nosso povo e, no continente africano, isso ainda não é uma realidade. A África hoje, apesar de ter lideranças políticas riquíssimas, representa apenas 1%  da inserção na economia mundial", conclui.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Racismo institucional na mídia brasileira é tema de debate na OAB-BA

Racismo institucional foi pauta de debate na OAB-BA. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior 

Como enfrentar o racismo institucional na mídia brasileira? Essa problematização serviu de mote para uma audiência pública realizada hoje à tarde, na sede da Ordem dos Advogados da Brasil - Seção  do Estado da Bahia (OAB-BA), em Salvador. A iniciativa partiu de uma demanda da União de Negros e Negras pela Igualdade (UNEGRO) e teve apoio da OAB-BA e da Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial (CPIR). Além de discutir a ação civil pública ajuizada pela UNEGRO contra a Rede Globo, por reforçar práticas de racismo institucional na novela Segundo Sol (autoria: João Emanuel Carneiro/Direção: Denis Carvalho e Maria de Médicis), o encontro ampliou o debate para todo o histórico de negação da população negra na mídia, pauta sempre presente na agenda do Movimento Negro. "Essa ação nossa é motivada por uma discussão antiga e histórica do Movimento Negro brasileiro. As redes de televisão nos ignoram. Basta saber que estamos nesse estado, que todo mundo sabe que é de maioria negra, mas todas as seis redes familiares e empresariais (excluindo a televisão pública que responde a uma outra lógica) negam admitir nos seus quadros a representatividade desse estado", afirmou Ângela Guimarães, presidenta da UNEGRO.

Da esquerda para a direita: Cássia Valle, Valdirene Assis e Ângela Guimarães. Foto: Raulino Júnior

O encontro, que foi mediado pela advogada Dandara Pinho (presidente da Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial da OAB-BA),  teve como foco o artigo 53, da Lei 13.182/2014, que institui o Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa do Estado da Bahia e contou com a participação de representantes de organizações que lutam por direitos e inserção social do povo negro, como o Coletivo de Entidades Negras e o Bando de Teatro Olodum. A ênfase de todos os discursos foi acerca da proporcionalidade dos negros na mídia. "A demanda nossa é também por proporcionalidade. Quando a novela for do Sul, retratando as comunidades alemães, italianas, japonesas, a gente até topa ser 20%; mas passou do Sul, a gente é de 40% pra mais, a gente quer proporcionalidade. Nada menos!", provocou Ângela. Valdirene Assis, procuradora-geral do Ministério Público do Trabalho (MPT), destacou como o órgão pretende enfrentar o problema do racismo institucional na mídia: "A situação da população negra é sempre desvantajosa. A reparação só é possível se a gente pensar num pacote de medidas. O MPT quer que uma instância formada por negros seja implementada dentro da Rede Globo". A atriz, museóloga e escritora Cássia Valle, que integra o Bando de Teatro Olodum, foi bastante enfática no seu pronunciamento: "Tem dois atores do Bando na novela. Não é porque eles estão lá, que nós não vamos lutar. Eu me recusei a fazer o teste, porque, se a Rede Globo quisesse, ela sabia onde encontrar atores para contar aquela história. A gente pode continuar brigando, mas também podemos fazer uma coisa bem simples com o nosso dedo: não ligar a televisão. Vamos brincar de desligar a televisão!", convocou.

Racismo Institucional

Em 2013, o Geledés - Instituto da Mulher Negra publicou o Guia de Enfrentamento ao Racismo Institucional. Na página 11, lê-se o seguinte: "O conceito de Racismo Institucional foi definido pelos ativistas integrantes do grupo Panteras Negras, Stokely Carmichael e Charles Hamilton em 1967, para especificar como se manifesta o racismo nas estruturas de organização da sociedade e nas instituições. Para os autores, 'trata-se da falha coletiva de uma organização em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica'". No Brasil, o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI) implementado no Brasil [sic] em 2005, definiu o racismo institucional como 'o fracasso das instituições e organizações em prover um serviço profissional e adequado às pessoas em virtude de sua cor, cultura, origem racial ou étnica. Ele se manifesta em normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano do trabalho, os quais são resultantes do preconceito racial, uma atitude que combina estereótipos racistas, falta de atenção e ignorância. Em qualquer caso, o racismo institucional sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e por demais instituições e organizações". 

sábado, 19 de maio de 2018

Inscrições abertas para mais uma edição da oficina de uso de blogs por "focas"

Imagem: divulgação
Por Raulino Júnior 

A quinta edição da oficina Uso de blogs por "focas" como experimento para a prática jornalística, que será realizada no dia 26 de maio, está com inscrições abertas. Para participar, basta enviar e-mail para viva.bpeb@fpc.ba.gov.br e solicitar a inscrição. As vagas são limitadas. A atividade, que acontece na Biblioteca Central do Estado da Bahia (Biblioteca dos Barris) desde janeiro de 2018, das 9h às 11h, tem como intuito estimular a criação de blogs por estudantes de Jornalismo e profissionais da área que estão no início da carreira, para servir como portfólio de trabalho. A oficina é gratuita, com direito a certificado.

"Foca" é um termo utilizado entre os jornalistas para se referir a estudantes de Jornalismo ou a quem está no início da carreira. No livro Manual do Foca: guia de sobrevivência para jornalistas, a jornalista e professora da Universidade de Brasília (UnB)Thaïs de Mendonça Jorge, afirma: "Foca é o jornalista novato, bisonho - ou seja, não experimentado -, aquele que ainda pensa em fazer um curso de Jornalismo ou o jovem quem está caminhando para essa profissão", p.13. Citando Carlos Alberto Nóbrega da Cunha, a autora diz ainda que "foca nos Estados Unidos é cub, que em inglês significa filhote. A palavra cub também designa os escoteiros novatos, os lobinhos", p. 13.

Até quem está pensando em fazer o curso de Jornalismo, é considerado foca. Então, se você se considera, inscreva-se na oficina!
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