domingo, 15 de março de 2020

Solange Souza Lima Moraes: "O papel do cinema também é social"

Em entrevista para o DesdeSolange Souza Lima Moraes destaca a importância dos profissionais de produção, fala de suas experiências no audiovisual e diz por que acredita na função social do cinema

Solange Souza Lima Moraes: cineasta e produtora audiovisual. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior

Solange Souza Lima Moraes é formada em Cinema pela Universidade Federal da Bahia, produtora audiovisual com mais de 30 anos de experiência e proprietária da Araçá Filmes, que foi fundada em 1998. Solange trabalhou em importantes produções do cinema nacional, como Tieta do Agreste (Cacá Diegues, 1996), Brilhante (Conceição Senna, 2005), Estranhos (Paulo Alcântara, 2009), Jardim das Folhas Sagradas (Pola Ribeiro, 2011) e Capitães da Areia (Cecília Amado, 2011). Além disso, foi a responsável pela produção, em Salvador, do videoclipe Eles não se importam conosco (Spike Lee, 1996), de Michael Jackson. Atualmente, está prestes a lançar o curso A Engenharia da Produção no Cinema, para interessados em cinema, e os filmes A Pele Morta (Bruno Torres e Denise Moraes), Longe do Paraíso (Orlando Senna) e Nina (Paulo Alcântara). Nesta entrevista que concedeu ao Sem Edição, integrando a série Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde, Solange mostra a sua paixão pela sétima arte, destaca a importância dos profissionais de produção na realização de um filme, opina sobre a indústria de videoclipes, fala sobre suas experiências em atividades de gestão e afirma: "Eu trabalho com filmes que tenham um retorno reflexivo". Assista, nos vídeos a seguir, à entrevista com Solange Souza Lima Moraes.

OBSERVAÇÃO: 1) Na apresentação de Solange e na parte final da entrevista, Raulino Júnior acrescenta um "de" que não existe ao nome da produtora. Ainda na apresentação, o jornalista fala: "...dos filmes pelos quais ela participou como produtora". Na verdade, o correto seria: "...dos filmes dos quais ela participou como produtora". Desde já, pedimos desculpas pelos erros; 2) Pedimos desculpas também pelos ruídos que comprometeram alguns trechos da entrevista. Foi problema de configuração da câmera. Ficaremos mais atentos nas próximas entrevistas.

Sem Edição| Solange Souza Lima Moraes ⇨ Série "Cinema Falado" - Parte 1


Na primeira parte da entrevista, Solange fala como se transformou numa produtora de cinema, diz como é ser mulher na sétima arte e conta como foi as suas experiências trabalhando na produção de filmes. Ela fala também sobre a passagem pela gestão, onde atuou em  órgãos como a Associação Baiana de Cinema e Vídeo e Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas, entre outros. Na entrevista, a produtora ainda opina sobre a Lei de Incentivo à Cultura e sobre as políticas públicas para o audiovisual.

Sem Edição| Solange Souza Lima Moraes ⇨ Série "Cinema Falado" - Parte 2


Na segunda parte, Solange fala sobre o papel do cinema na sociedade, sobre o curso "A Engenharia da Produção no Cinema" e sobre os atuais projetos da "Araçá Filmes".

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Canais de Solange Moraes nas redes sociais digitais:

domingo, 1 de março de 2020

Carlos Pronzato: "O que falta ao audiovisual brasileiro é uma estrutura política de confrontação com o mercado capitalista audiovisual invasivo norte-americano e europeu"

Documentarista argentino radicado no Brasil fala sobre carreira, cinema, militância e movimento estudantil da atualidade, em entrevista para a série Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde

Carlos Pronzato: escritor, dramaturgo e cineasta. Foto: divulgação.
Por Raulino Júnior

Carlos Jorge Pronzato, ou simplesmente Carlos Pronzato, se apaixonou por cinema acompanhando o trabalho de seu pai, Victor Pronzato, que foi músico, compositor, dramaturgo e roteirista de cinema e TV. Victor Proncet (nome artístico também utilizado pelo pai) foi um expoente da cultura da Argentina. Ele transformou um de seus contos num roteiro que deu origem a um dos filmes de ficção política mais importantes do continente: Los Traidores (dirigido por Raymundo Gleyzer). "Meu pai sempre foi e é uma inspiração fundamental no meu trabalho e na minha vida, principalmente na atitude e compromisso ético diante das questões do quotidiano", declara. O pai faleceu em 2009 e a mãe, Irma Haydée, artista plástica e fotógrafa, em 1993. Ambos deixaram o legado artístico para Pronzato, que é escritor, dramaturgo e cineasta. Entre curtas e longas, alguns de ficção e experimentais, o documentarista tem cerca de 80 filmes, que estão catalogados no site La Mestiza Audiovisual. "La Mestiza surge no início dos anos 2000 e é apenas um nome de fantasia de algo muito concreto, que é essa penca de filmes produzidos ao longo dos anos, mas não existe como empresa ou algo que se assemelhe", explica. Da penca de filmes citada por ele, estão na lista os documentários Maio Baiano (2001), A Revolta do Buzu (2003), A Rebelião dos Pinguins (2007), Che 80: aniversário de nascimento de Ernesto Che Guevara (2008), Carlos Marighella: quem samba fica, quem não samba via embora (2011), Copa do Mundo Fifa 2014: sem baianas de acarajé? (2013), Por uma vida sem catracas: Movimento Passe Livre - São Paulo (2014), A partir de agora: as jornadas de junho no Brasil (2014), Forrobodó: uma história de São João na Bahia (2015), Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile! Escolas Ocupadas em São Paulo (2016), A Escola Toma Partido: uma resposta ao projeto de lei Escola Sem Partido (2016), Mestre Moa do Katendê: a primeira vítima (2018) e Lama: o crime vale no Brasil - A tragédia de Brumadinho (2019), só para citar alguns. Argentino por natureza e brasileiro de coração, Carlos Pronzato radicou-se no Brasil em 1989. Chegou por aqui, mais especificamente em Salvador, aos 29 anos. Hoje, com 60, circula no país e no exterior para divulgar e produzir conteúdos para contar as suas histórias, sempre com o olhar de cineasta militante. A empreitada mais recente tem como objetivo documentar a atual situação social e política do Chile. Por isso, já está em terras chilenas, fazendo a pré-produção de Piñera, a Guerra contra o Chile, provável nome do documentário. Nesta entrevista, feita por e-mail e que integra a série Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde, Pronzato fala sobre a formação em direção teatral, analisa o cinema brasileiro e argentino, opina sobre o movimento estudantil dos dias de hoje, faz críticas ao atual governo do Brasil, reflete sobre a própria prática profissional e sobre alguns de seus documentários e fala de militância: "Sou um cineasta militante pela perseverança nos temas e numa postura política firme desde o início, mantendo uma independência total no que diz respeito aos parcos recursos de produção, vindos exclusivamente do movimento social, sejam organizações ou pessoas físicas".

Desde que eu me entendo por gente: O seu contato com a arte se deu dentro de casa, já que os seus pais são artistas. A paixão pelo cinema nasceu acompanhando o seu pai. Ele também trabalhava mais com documentários? E por que a sua predileção por esse gênero?

Carlos Pronzato: Acompanhava meu pai nos laboratórios da indústria cinematográfica argentina, na década de 70, quando ia colocar as trilhas nos filmes e nos ensaios de suas peças teatrais. Depois, ajudei nas adaptações de romances da literatura universal para programas televisivos que ele escrevia. Havia uma belíssima e nutrida biblioteca em casa que foi a fonte das minhas atividades futuras no cinema, na literatura e até na política, não institucional, é claro. Meu pai trabalhou em alguns documentários como roteirista, entre eles, um muito conhecido na área social, também com Raymundo Gleyzer como diretor, La Tierra Quema, gravado em Pernambuco, em 1963. Compôs a música de muitos filmes e outros tantos roteiros de cinema e TV. A minha predileção pelo gênero documentário vem das minhas viagens de carona por toda a América Latina durante quase toda a década de 80 e um gosto muito especial pela História, e especificamente pela História do nosso povo latino-americano, e a possibilidade de contribuir com um olhar subjetivo e com propostas de ação política dentro do gênero dito documental.

Desde: Entre 1989 e 1993, você estudou direção teatral na UFBA. Por que optou por esse curso?

CP: Optei pelo curso porque era o que já tinha iniciado de forma prática na Argentina, no início da década de 80, antes de viajar para me instalar no México, onde fiquei quase um ano. Foi a partir dessa experiência e aventura mexicana que iniciei uma longa viagem, trabalhando em diversos ofícios pelo continente, que finalizou no Brasil, em São Salvador da Bahia, no fim da década, onde cursei o bacharelado em Artes Cênicas, retomando minhas atividades e estudos teatrais, montando muitas peças em paralelo ao curso. Na adolescência, era um apaixonado pela leitura de peças teatrais, que depois comparava com as montagens, indo assistir às peças que tinha lido previamente. Aí comecei realmente a minha carreira na direção teatral, que pretendo retomar. O que não abandonei nunca é a dramaturgia, escrevendo algumas peças até hoje.

Desde: Além de cineasta, você é escritor e dramaturgo. Como cada atividade dessa contribui para o desenvolvimento de todas elas?

CP: Acho que cada uma dessas atividades artísticas tem sua dinâmica própria. Por exemplo, a literatura de ficção e a escrita teatral precisam de uma concentração extrema, no meu caso. Por isso, essas obras surgem em lapsos relativamente esparsos. Já a poesia acompanha a realização dos documentários, os temas candentes abordados neles vão influenciando a escrita, inclusive temas históricos encontram inspiração na escrita poética, como nos livros Poemas sem terra, Poesias contra o Império, Che, um poema guerrilheiro, Poesias sem licença para Carlos Marighella, Bolívia Poema Rebelde, Alguma poesia para Brumadinho etc. A maioria dos meus livros publicados são, justamente, de poesia; já de contos e crônicas são apenas três e alguns de teatro e infantis.

Desde: Você nasceu na Argentina e se radicou no Brasil a partir de 1989. Pensando no cinema, quais as diferenças e semelhanças dessa arte nesses dois países sul-americanos?

CP: Seria muito longo enumerar coincidências ou diferenças. Num sentido amplo, as duas cinematografias compõem o campo do antigamente denominado Cinema do Terceiro Mundo, que era uma acepção ou um rótulo estritamente político, que ao longo do tempo foi perdendo as suas caraterísticas essenciais, acompanhando o processo político mundial. Diretores como Glauber Rocha foram ícones de um tempo épico e influenciariam o cinema de vários cantos do mundo. Argentina não teve um vulcão glauberiano na sua historia da sétima arte, embora potente a nível do continente de fala hispana, o que lhe rendeu um público diversificado e massivo para poder construir uma indústria nos anos 40 e 50 do século XX, a época de ouro do cinema platino. Da mesma forma, esse auge industrial aconteceu também no Brasil, sendo que aqui o mercado era “apenas” interno, um mercado interno equivalente a vários países da região. Hoje, o Brasil, apesar de ainda não ter ganho nenhum Oscar da Academia — algo que não pode ser parâmetro para a nossa cultura  , e que a Argentina já conseguiu em duas ocasiões, hoje, digo, o Brasil é um referente cinematográfico com obras criadas não só no eixo sulino, mas também em Pernambuco, fonte de criadores e obras marcantes nos últimos tempos. Argentina, por sua parte, produz também hoje um cinema de conteúdo bem particular e caraterístico, de muita personalidade, com roteiros, elenco e direções contundentes e também no âmbito do documentário politico, um verdadeiro núcleo fundante e ativo ainda hoje da escola latino-americana de documentaristas.

Desde: Você se considera como um cineasta militante. Quais são as vantagens e desvantagens de sê-lo?

CP: Bom, em grande medida se pode dizer que sou um cineasta militante pela perseverança nos temas e numa postura política firme desde o início, mantendo uma independência total no que diz respeito aos parcos recursos de produção, vindos exclusivamente do movimento social, sejam organizações ou pessoas físicas. Digo parcos porque as solicitações de apoio para os diversos projetos são parcas também, justamente para manter o perfil de um cinema político “do Terceiro Mundo”, que nunca se vendeu ao mercado capitalista e continua nas trincheiras. As vantagens são basicamente no plano ético, já que podemos escolher os assuntos e até decidir sobre os convites, desistindo sempre, por exemplo, de se envolver em campanhas políticas, apesar do monte de dinheiro que se pode ganhar nessas farsas burguesas eleitorais. Nosso campo é outro, é o terreno da luta popular. A desvantagem é justamente sobreviver sem entrar nesse submundo.

Desde: Você considera o documentário como um instrumento de luta. De onde vem essa predileção por documentar, especificamente, manifestações e personagens ligados a combates políticos?

CP: As viagens, sempre por terra e da maneira que eu as vivi, percorrendo diversos países, em situações políticas complexas nos anos 80, quando ainda havia os confrontos bélicos na América Central, por exemplo, e também em alguns países da América do Sul, entre as guerrilhas e o terrorismo de Estado, despertou em mim o interesse pelas conjunturas da época e pelos processos históricos prévios. Assim cheguei a figuras como Ernesto Che Guevara, Salvador Allende, Marighella etc. Posteriormente, passei a documentar as manifestações surgidas no seio popular, ditas “espontâneas”, principalmente manifestações não surgidas em gabinetes ou com convocatórias previamente organizadas. Primeiro, no Brasil, e depois retornei a outros países do continente, como Bolívia (A Guerra da Água, A Guerra do Gás etc.), Chile (A Rebelião dos Pinguins) ou na própria Argentina dos levantes populares de dezembro de 2001 e das lutas operárias das fábricas fechadas e recuperadas pelos trabalhadores, como a Brukman (Fábrica Brukman sob controle operário).

Desde: Na sua opinião, o que falta ao audiovisual brasileiro? 

CP: Em grande medida, o audiovisual brasileiro (excetuando as comédias de apelo fácil e massivo produzidas regularmente por grandes cadeias televisivas) tem conquistado uma expressiva fatia do interesse de uma ampla gama da população, que poderia ter um grande apelo formativo político, se houvesse uma política de Estado constante, responsável e convidativa. Uma oportunidade perdida de construção popular durante os 13 anos do governo petista. O que falta ao audiovisual brasileiro, então, como a todo o cinema do continente ao sul do Rio Bravo (salvo algumas exceções, como Cuba, que tem conquistado um ethos próprio de reivindicar sua cultura), é uma estrutura política de confrontação com o mercado capitalista audiovisual invasivo norte-americano e europeu, seja nas telonas ou no mundo digital de exibição. Uma política de Estado. Se houvesse um Estado com voz coletiva e diariamente ativa, muito além das máquinas burocráticas dos gestores das Secretarias respectivas, onde cinemas de intervenção política como o nosso não tenham que disputar verbas com o cinema comercial através de editais de cartas marcadas. Falta isso. Se você me perguntar especificamente por um cinema de combate político, uma verba fixa para trabalhar a partir do interesse social com todos os coletivos de cineastas com preocupações políticas e sociais, sem a interferência de ONGs amigas dos governantes de turno ou encomendas de próprio governo a integrantes ou simpatizantes dos partidos eventualmente no poder.

Desde: 2019 não foi um ano fácil para o setor cultural, que sofreu com censura e desmantelamentos. Quais, na sua opinião, são as perspectivas para a área até 2022, quando encerra a gestão do presidente Jair Bolsonaro?

CP: A perspectiva neste deserto cultural que foi imposto pelas milícias que ocupam atualmente o Planalto é a pior possível. Vivemos cercados de uma constelação de imbecis de toda espécie nos ministérios e repartições que se apossaram de um espaço público através de eleições fraudulentas, após colocar na cadeia o candidato opositor e ganhador natural do pleito. A perspectiva então, se não houver nalgum momento uma rebelião popular de uma contundência tal que os retire violentamente do Planalto, é de que os desmantelamentos continuarão até ficar uma paisagem tão inóspita quantos as terras onde se edificou Brasília nos anos 60. Portanto, independentemente dos processos coercitivos e desmotivadores vindos da Presidência, e as suas surrealistas Secretarias, o fundamental é produzir de qualquer maneira, sem importar esforços e sacrifícios, ignorando qualquer dependência ou tentativa de censura do poder central. Por exemplo, o filme sobre Marighella, de Wagner Moura, deveria ter promovido a sua estreia através de formas alternativas, driblando os obstáculos econômicos postos pela ANCINE. Assim, para Carlos Marighella, o homem que enfrentou a ditadura civil militar da época, esta realidade de hoje cheia de milicos em postos importantes de poder, seria até piada para ele e sua organização, a ALN (Ação Libertadora Nacional). Portanto, onde ele estiver, não deve ter gostado nada dessa claudicação, de um filme em seu nome, em tempos de “democracia”. Mas, no fundo, isso é cinema comercial, visa apenas o lucro e não a ativação de molas políticas, e não tem por que se expor como se expõe um cineasta ou uma equipe de intervenção política.

Desde: Qual é a função do cinema na sociedade atual?

CP: A sua função é a mesma de qualquer outra forma de expressão artística, submeter à opinião pública fatos, acontecimentos de todo tipo, através de elaborações estéticas de ficção ou documental, no intuito de obter um diálogo e a consequente mobilização da sociedade ou do indivíduo.

Desde: Se o Brasil atual fosse um filme, de qual gênero seria e por quê? 

CP: Brasil é um filme infinito, colorido, pulsante e de todos os gêneros possíveis, por causa da composição da sua população extremamente miscigenada, étnica, social e culturalmente. Um drama em muitos sentidos, porém sempre com pitadas de comédia libertadora, parte essencial de toda revolução dinâmica e quotidiana que se preze.

Desde: Você produziu inúmeros documentários, o que fica até impossível de falar de todos numa entrevista, mas a pergunta é: quando você sente que um episódio vale a pena ser documentado? Qual é o insight?

CP: Bem, essa é a pergunta inicial e principal que todo documentarista político se faz diante de algum acontecimento. A decisão de topar a parada, ou não, vai depender de diversos fatores. Antes, não havia opção, a decisão tinha que ser imediata, já que o documentário cumpria, além da sua função histórica posterior de resgate da memória, um papel imediato, pontual e noticioso, algo que hoje é preenchido pela informação instantânea das redes sociais. Portanto, a entrada em campo era imprescindível para documentar, e o mais rápido possível editar, fazer o recorte autoral em função do material coletado e lançar o documentário... em VHS! Era uma maneira, e ainda é em menor medida, pela existência da internet — e a metralhadora informativa das redes e dos meios virtuais profissionais também —, de interceder na realidade sociopolítica através dos cines debates posteriores, que ainda são o ponto alto das discussões provocadas por esse tipo de documentário. Às vezes, a gente acerta e a obra fica como uma referência obrigatória quando se abordam certos temas históricos, daí a nossa responsabilidade, principalmente quando é a única realização audiovisual sobre determinado tema. 

Desde: Nunca pensou em fazer jornalismo? Por quê?

CP: O jornalismo é uma atividade intrínseca ao documentário. A gente se nutre constantemente de matérias, artigos e coberturas feitas no calor da hora, quando não nos é possível participar in situ. Isso em referência a materiais que envolvem luta de classes e uma realidade do momento. Até nos materiais sobre episódios do passado, o jornalismo é importante pelas matérias da época, escritas e audiovisuais. Nunca pensei em fazer Jornalismo como nunca pensei em fazer Cinema nem Letras, e nem Teatro na universidade, mas quando apareceu a oportunidade das Artes Cênicas na UFBA, entrei imediatamente para exercitar o que já fazia e ter maior tempo e possibilidades de acesso à bibliografia e à prática teatral. Todas essas disciplinas, como as artes em geral, são fundamentalmente práticas e, se não há um interesse vital e uma vocação inexplicável, o melhor é se dedicar a estudos acadêmicos mais seguros. Os estudos formais nessas áreas, para mim, são apêndices importantes, mas não decisivos para exercer a profissão.

Carlos Pronzato: militância através das lentes. Foto: Ícaro Juan.

Desde: O documentário A Revolta do Buzu, lançado em 2003, é usado como referência por movimentos sociais espalhados pelo Brasil. O filme foi um divisor de águas na sua carreira? Por quê?

CP: Sim, foi e é usado largamente no Brasil afora pelos movimentos de Tarifa Zero, inclusive chegando a incidir na formação política do MPL (Movimento Passe Livre), a garotada que provocou o maior levante popular do Brasil neste século, em junho de 2013. Isso é dito por eles no documentário A partir de agora: as jornadas de junho no Brasil. Foi um episódio marcante, que da Bahia se espalhou para outras capitais, formando muitos militantes e provocando grandes manifestações pelo passe livre. No sentido da difusão e popularidade do meu trabalho, acho que foi, sim, um marco positivo nos âmbitos estudantil e universitário; mas, ao mesmo tempo que é uma carta de apresentação, inclusive em manifestações para ter livre trânsito entre a militância quando a desconheço, foi um rótulo que até hoje é difícil de descolar da minha câmera.

Desde: Além de terem o movimento estudantil como referência, o que mais você acha que tem em comum entre os documentários A Revolta do Buzu, Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile, Por uma vida sem catracas e A partir de agora: as jornadas de junho no Brasil? Por quê?

CP: Todos estão intimamente ligados, nem só por terem todos o mesmo diretor e a mesma proposta editorial, senão pela linha condutora, inclusive cronológica, dos acontecimentos através do tempo. Mas o filme que mais influenciou as ocupações de escolas em São Paulo, em 2016, foi o documentário A Rebelião dos Pinguins, de 2007, e poderia ser incluído nessa lista da sua pergunta. O traço fundamental é a rebeldia dos jovens, sempre a vanguarda de todas as lutas, a organização política autônoma sem necessidade de partidos políticos, apesar de muitos militantes de partidos participarem como indivíduos, sem necessariamente a tutela do gabinete. Porém, essa dicotomia a gente não aborda de maneira contundente nesses documentários, o que seria um ótimo tema de discussão, além de ser um tema de eternas brigas. O importante nesses documentários é retratar as causas, os progressos, retrocessos e efeitos das revoltas, as estratégias utilizadas e as perspectivas políticas de emancipação que essas mobilizações podem provocar.    

Desde: Para documentar, como você ganha a confiança dos manifestantes e das forças que o poder público usa para coibir as manifestações?

CP: A confiança das forças da repressão nunca as ganho e nem me interessa ganhar, porque as combato tanto quanto os manifestantes, mas sobre a confiança que é necessário ganhar destes últimos, tenho diversos exemplos. Para documentar os protestos de 2013  aos quais só cheguei quando o processo estava bem avançado, já que estava fora do país, num Festival naquele momento  numa das concentrações populares que se dirigiam a protestar na sede da TV Globo, em São Paulo, como não conseguia acesso para entrevistar os manifestantes durante a marcha, coloquei para alguns que eu era o diretor de A Revolta do Buzu ("Você é o Pronzato?", "Sou!"), aí as comportas se abriram (risos). De outra feita, numa grande manifestação na Avenida Paulista, em novembro de 2015, durante as manifestações das Escolas Ocupadas, também usei o expediente diante da recusa a falar dos manifestantes, estudantes secundaristas. Dessa vez, o título enunciado e mostrado foi o DVD dos pinguins chilenos, que eles estavam utilizando nas escolas para mobilizar os alunos. Ali mesmo já marcamos minha ida às escolas... Claro que, além de tudo isso, também participo das revoltas como qualquer manifestante, quando as pausas na gravação o permitem.

Desde: Em 2001, você lançou o documentário Maio Baiano. Na época, embora já estivéssemos num regime democrático, vivíamos num contexto de coronelismo. Você não teve medo de retaliação dos governantes? Por quê?

CP: A última coisa que me vem à cabeça nessas situações é essa percepção do perigo. Deve ser algo inconsciente, que no momento da ação se apaga para poder agir em liberdade e com todo ímpeto. Já o momento posterior faz parte do quotidiano e não tenho como medir as consequências, porque, se em algum lugar uma porta se fecha, inclusive sutilmente, noutro se abre. Mas aprendi cedo a não colocar na balança situações a posteriori, para poder pensar no impossível e conseguir o máximo do possível, como dizia Bakunin. Além do que, se você assume um compromisso, não pode ser pela metade, tem que ir fundo. Não sou um político, com todo respeito a alguns que atuam do nosso lado e que exercem a arte da negociação para atingir o sucesso possível em certas pautas sociais.

Desde: Politicamente, o que acha do movimento estudantil da atualidade?

CP: Há um retrocesso atroz em nível nacional, se levarmos em conta as vitórias históricas conseguidas pelos movimentos estudantis (são vários e diversos) nas ruas e nas ocupações de Escolas, como no Paraná, por exemplo, um recorde mundial de ocupações que registarmos no documentário Ocupa Tudo: Escolas Ocupadas no Paraná. Com esse volume de ações e exigências, parece que, no fim, há sempre uma acomodação posterior influenciada pelo dispositivo partidário e as diversas tensões entre grupos políticos, não necessariamente institucionais, que ultrapassam até a capacidade da mobilização efetuada para reivindicar os direitos e as diversas pautas. Há um foco excessivo das organizações estudantis na política eleitoral e até isso não ser devidamente quebrado e enterrado, o movimento estudantil será apenas mais um tijolo da institucionalidade cada dia mais vilipendiada pelas populações do mundo todo, vide Chile como exemplo definitivo disso.

Desde: A Lei de Incentivo à Cultura (antiga "Lei Rouanet") passou por mudanças no primeiro ano da gestão de Bolsonaro. Antes disso, o instrumento de fomento à cultura já recebia críticas de artistas e produtores culturais. Claro que os criadores faziam críticas de outra natureza. Qual análise você faz disso tudo?

CP: Lamentavelmente, deixei de acompanhar essas discussões há muito tempo, para poder me entregar de cheio a ações práticas. O jogo burocrático instalado nesse enjambre legislativo me excede completamente, não é um campo onde me sinta à vontade. É fundamental para arrancar do Estado certas questões favoráveis a classe, mas, se já era ruim antes, um labirinto imobilizador de reuniões e mais reuniões para quem tem compulsão de trabalho, imagina agora, quando dificilmente se possa arrancar algo de positivo. Por outro lado, o meu cinema é muito modesto para estar discutindo e me digladiando por quantias de milhões de reais. Outros profissionais, que tem que cobrir estruturas super profissionais de produção, estão mais aptos a essas discussões e embates com os burocratas do Estado. Mas hoje, com o protofascismo instalado nos espaços de Poder, é preciso voltarmos a um Estado com as condições mínimas de sanidade mental para que tudo isso possa ser discutido. Neste momento, não adianta propor nada, já que não há ninguém minimamente normal e decente com quem sentar e discutir. O primeiro passo é destituir essa turma.

Desde: Você soube que o Governo do Estado da Bahia fechou o Colégio Estadual Odorico Tavares, não foi? Cerca de 30 estudantes chegaram a ocupar o colégio, mas o movimento não foi adiante. Se se alongasse, você se interessaria em fazer um documentário? Por quê?

CP: Infelizmente, não estava no Brasil quando isso aconteceu. Um outro absurdo para a coleção de equívocos da social-democracia, para um governo estadual que alguma vez neste Estado teve na sua cartilha o culto ao bem-estar social. É inadmissível, pelas razões das quais tive conhecimento, deslocar essa Escola, que, paradoxalmente, foi inaugurada por um governo da direita explícita naquele bairro nobre de Salvador e, hoje, um governo que deveria prestar atenção à majoritária massa pobre da cidade e à sua educação, muito além das políticas sociais que todo governo promove em maior ou menos medida  segundo os interesses do Banco Mundial  promove um absurdo desses para beneficiar projetos do mercado imobiliário. Soube, sim, da ocupação, foi bastante divulgado e seria um episódio digno de ser documentado, além das matérias jornalísticas que fizeram a cobertura. Na Itália, precisamente no bairro mais famoso de Roma, o Trastevere, tive a oportunidade, em 2014, de presenciar o trabalho de ocupação feito por estudantes universitários num cinema, o histórico Cinema América, que foi fechado e seria entregue à voracidade imobiliária. Até hoje os estudantes, com atividades políticas e culturais, mantém a ocupação, detendo os empresários, que, com certeza, não são de esquerda. Aqui no Brasil, inversamente, do que se trata é de deter um governo de centro esquerda! Inadmissível. Foi tema de um conto do meu livro O Milagre da luz e outros contos em Trastevere. Disto, sim, eu gostaria de fazer um documentário.

Desde: Para você, um governo que fecha escolas deixa o pior legado para a sociedade? Por quê?

CP: Nem só para a sociedade, esse legado, esse peso é principalmente para aqueles ainda entusiastas, ainda esperançosos, estoicos membros do partido do governo. A maior vergonha é para eles.

Desde: Em 2018, você fez um documentário sobre a morte de Moa do Katendê; e em 2019, sobre a tragédia de Brumadinho. Como foi registrar essas duas tristes páginas da história recente do Brasil? Por quê?

CP: Recebi um convite de grupos de capoeira da Bahia, no dia seguinte do assassinato de Mestre Moa, para realizar um documentário sobre esse triste episódio e, em seguida, emprestei a minha solidariedade e convidei um sindicato que aportou toda a ajuda desinteressadamente, colocando à disposição suas estruturas, o SINDAE (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente no Estado da Bahia). Casualmente, estava em Salvador, digo casualmente porque ultimamente passo pouco tempo durante o ano na Bahia. Valeu muito pela aproximação de um universo especifico, o da capoeira, e o dos valores do mundo afro-baiano, do qual andava bastante distante desde os meus primeiros tempos na Bahia, quando treinei capoeira no forte de Santo Antônio com o mestre João Pequeno e as adaptações teatrais que fiz do Mestre Didi, naquelas minhas primeiras incursões no labirinto baiano. Conhecer a família e os afetos do Mestre Moa, a quem nunca conheci pessoalmente, foi um imenso prazer e um aprendizado imenso. O documentário se espalhou rapidamente pelo Brasil através da web e até ganhou legendagem em espanhol. Pouco mais de um ano depois, aconteceu o crime da empresa Vale, em Brumadinho. O documentário Lama, o crime Vale no Brasil, a tragédia de Brumadinho está numa plataforma virtual chamada Libreflix. Eu estava em Sergipe, em janeiro de 2019, realizando um outro trabalho, sobre o educador Manoel Bomfim, e fui para as Minas Gerais, estado onde já tinha realizado outros trabalhos, pelo qual não foi difícil estruturar a produção do documentário. Montei uma equipe pequena e colocamos mãos à obra até a sua estreia, no início de abril do ano passado. Foi outro assassinato, este coletivo, com quase 300 mortos e desaparecidos, e pelos motivos mais capitalistas possíveis, o pouco interesse pela vida humana.  

Desde: Che e Marighella, pelo visto, são ídolos para você. O que chama tanto a sua atenção na história dos dois? Por quê?

CP: Não são ídolos, são muito mais do que isso, são companheiros de viagem, assim como alguns outros personagens da História, guerrilheiros, comandantes, subcomandantes, exploradores, escritores, pintores, cineastas, poetas ....Ambos, Ernesto e Carlos, são personagens da nossa História popular continental que respeito como poucos, pela lucidez a prova de qualquer acomodação política, pela coragem, pelo desprendimento, pela entrega das suas vidas como exemplo, pela ética, por não se apegarem a nenhum poder, por seguirem o curso certo que o destino, sempre variável, lhes ofereceu. Do primeiro, Che, conheci seus percursos nas minhas viagens iniciais latino-americanas; do segundo, Mariga, tive as primeiras informações a respeito no Brasil. Quando se aproximava o centenário de nascimento de Carlos Marighella, em 2011, houve um caudal imenso de informações a respeito e fiz a minha contribuição com o documentário Carlos Marighella, quem samba fica, quem não samba vai embora (se encontra numa plataforma virtual chamada Bombozila), cuja produção me colocou em contato com pessoas fantásticas, ligadas a ele e à Historia desse pais. E, talvez por isso, a possibilidade de conhecer todos esses universos ligados à construção de cada filme, seja o melhor desta profissão.

Desde: Você é multifacetado, tem experiência em teatro, cinema e literatura. Contudo, e é uma pergunta filosófica, o que você mais gosta de ser?

CP: Nem sei se gosto de mim, mas tento ser apenas eu, o que, posso afirmar, não é nada fácil sendo, como você diz, tão multifacetado.

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Canais de Carlos Pronzato nas redes sociais digitais:

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Antonio Olavo: "O documentário é a forma, na linguagem do cinema, que mais se aproxima da verdade"

Em entrevista para o Desde, Antonio Olavo fala de carreira, violência racista e políticas públicas para o audiovisual

Antonio Olavo: cineasta, documentarista, roteirista, diretor e escritor. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior

Entrevistar Antonio Olavo é se conectar de forma potente com a ancestralidade negra que resistiu de todas as maneiras à opressão e contribuiu para formar a história e cultura do povo brasileiro. É sentir-se diante de um mestre griô, aquele que transmite conhecimentos através de suas vivências e de saberes que acumulou durante a vida. Aos 64 anos, 45 deles dedicados ao cinema, Antonio Olavo dos Santos Filho, como é registrado, teve o estímulo para se tornar cineasta através de um curso livre de cinema que frequentou na juventude e pelo fato de ter vivenciado, na mesma época, a dinâmica de um set de filmagem profissional, ao participar da produção dos filmes Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) e Os Pastores da Noite (Marcel Camus, 1979). Nesta entrevista que concedeu ao Sem Edição, integrando a série Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde, o baiano de Jequié mostra por que é um dos documentaristas mais importantes do país. Pesquisador contumaz dos temas a que se dedica, nenhuma obra de Olavo fica na superficialidade. Tudo tem um quê e um porquê. Em 1992, em parceria com Josias Santos, fundou a PORTFOLIUM Laboratório de Imagens, produtora de cinema e, eventualmente, editora. Ao longo da carreira como documentarista, produziu cinco longas: Paixão e Guerra no Sertão de Canudos (1993), Quilombos da Bahia (2004), Abdias Nascimento - Memória Negra (2008), A Cor do Trabalho (2014) e Revolta dos Búzios (2018). Além de Travessias Negras, série exibida na TV Educativa da Bahia (TVE Bahia), em 2017. Atualmente, está finalizando o documentário Ave Canudos! Os que sobreviveram te saúdam. Preocupado em valorizar a memória social, especificamente a do povo negro, Olavo é categórico: "A história da escravidão já nos foi contada. Eu já ouvi demais essa história [...]. Eu quero contar a história da resistência à escravidão, que essa existiu, foi grandiosa, foi digna, foi maravilhosa, foi emocionante, foi encantadora [...]. Onde há a opressão, há resistência à opressão. Onde houve a escravidão, houve a luta por liberdade. O tempo inteiro". Assista, nos vídeos a seguir, à entrevista com Antonio Olavo.

Sem Edição| Antonio Olavo ⇨ Série "Cinema Falado" - Parte 1


Na primeira parte da entrevista, Antonio Olavo fala sobre sua vinda de Jequié para Salvador, no final de 1973. Na capital, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursou Geologia. Nessa mesma época, fez um curso livre de cinema, ministrado por Guido Araújo. Assim, nasceu a vontade de ser cineasta. Através de Guido, teve a oportunidade de participar das produções dos filmes Dona Flor e Seus Dois Maridos e Os Pastores da Noite. Era o responsável pela seleção dos figurantes. No bate-papo, Olavo fala ainda sobre as suas referências no cinema documental, citando Eduardo Coutinho e Silvio Tendler, reflete sobre a falta de crítica cultural nos periódicos, explica o processo de produção dos documentários Paixão e Guerra no Sertão de Canudos e Quilombos da Bahia. No final da entrevista, o documentarista opina sobre racismo e a omissão do Estado: "Essas práticas de violências contra o povo negro, particularmente, é coerente com a estrutura que é montada no Estado já de muito antes e que ainda hoje se perpetua".

Sem Edição| Antonio Olavo ⇨  Série "Cinema Falado" - Parte 2 
                    

Na segunda parte, Antonio Olavo fala sobre os documentários Abdias Nascimento: Memória Negra, A Cor do Trabalho e Revolta dos Búzios. Sobre Abdias, conta como o conheceu e o que o intelectual lhe disse no dia do lançamento do filme, num Teatro Castro Alves completamente lotado, em 2008. O cineasta conta de onde vem a sua predileção em produzir documentários, reflete sobre a Lei de Incentivo à Cultura, analisa as práticas do atual governo no âmbito da cultura e opina sobre as políticas públicas para o audiovisual na Bahia: "Muito aquém do que poderia, muito aquém do que deveria, muito aquém do necessário".

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domingo, 2 de fevereiro de 2020

Shelmer Gvar: "É necessário divulgar melhor cada produto do audiovisual brasileiro para o próprio país"

Cineasta mineiro abre série de entrevistas Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde

Shelmer Gvar: dramaturgo, ator, cineasta, roteirista, produtor e gestor cultural. Foto: Bruno Rezende.
Por Raulino Júnior


Filho do advogado Shelmer José Queiroga e da reikiana Marília Queiroga, o mineiro Shelmer Gvar teve contato com a arte ainda na infância, através de seu avô. "Dentre muitas atividades, ele era bonequeiro. Tenho lembranças dele fazendo teatro de bonecos somente para mim, na sala da minha casa, até os meus 6 anos de idade, antes dele falecer". De lá pra cá, o menino se tornou um homem totalmente envolto em experiências artísticas. Multifacetado, o belo-horizontino começou a carreira artística como dramaturgo e, logo depois, passou a atuar (no teatro, na TV e no cinema). Nessa época, era Shelmer de Queiroga. Hoje, Shelmer, que adotou o "Gvar" no nome artístico, acumula as funções de diretor de cinema, roteirista, produtor e gestor cultural. Em 2010, fundou a produtora Operários da Alma, que tem o audiovisual como principal ramo de atuação. Nela, entre outras coisas, já produziu os documentários Além dos Sentidos e A Peleja da Essência (ambos de 2016). Passageiro, filme de ficção que está em fase de pós-produção e cujo título não é definitivo, tem previsão de estreia para o segundo semestre deste ano. Nesta entrevista, feita por e-mail e que abre a série Cinema Falado, em comemoração pelos nove anos do Desde, o cineasta fala sobre o trabalho que desenvolve na produtora, reflete sobre a Lei de Incentivo à Cultura e opina sobre o papel do cinema: "Retratar a realidade de uma sociedade".  

Desde que eu me entendo por gente: Quando nasceu a paixão pelo cinema?

Shelmer Gvar: Primeiramente, através dos filmes que eu assistia. Mas o fator determinante para eu entrar no setor audiovisual aconteceu quando o saudoso diretor Geraldo Santos Pereira foi assistir a uma peça teatral que eu escrevi e eu também atuava, intitulada “Bordel de Véu”. Me lembro dele entrando no camarim, elogiando muito o espetáculo e dizendo que enxergou em mim um ator de cinema. Aí ele me convidou para participar do próximo filme dele, “O Aleijadinho”. Achei que eu iria receber um papel secundário, mas já no meu primeiro filme eu tive a chance de fazer um personagem antagonista do Aleijadinho e muito interessante. O filme ainda dividiu o prêmio de melhor filme com o Bicho de Sete Cabeças, no festival de Recife, esteve em cartaz na Europa e participou de outros festivais.

Desde: Onde se formou artisticamente?

SG: A minha formação aconteceu, de fato, na prática diária com a arte. Porém, mestres e os estudos foram fundamentais para minha arte. Eu posso, primeiramente, citar o saudoso e grande amigo Jarbas Medeiros. Todos o conhecem como um dos grandes cientistas políticos, mestre de ciência política na UFMG, colunista da revista Carta Capital, porém ele tem vários quadros pintados, livros de poemas lançados e uma passagem muito importante como crítico de cinema na França. Ele apontou para mim vários filmes e dramaturgias que eu deveria consumir. Ele lia todos os meus textos e apontava vários caminhos para melhorar a minha arte. Também não posso deixar de citar o Ronaldo Boschi com seu núcleo de estudo sobre o método Stanislavsky. Através dos vários espetáculos de pesquisa sobre o dramaturgo russo Anton Tchekhov, aprofundamos muito na arte da interpretação. Preciso citar Marcos Vogel, que me convidou para participar do Núcleo de Estudos Shakespeariano. Esse período trouxe para mim um amplo significado da arte no sentido atemporal. Todas as montagens dos textos de Shakespeare surgiam após um grande período de estudos do teatro medieval, contemporâneo e reflexão sobre o dever da arte. Também preciso citar o professor Valentin Teplyakov, da Academia Russa de Artes, de Moscou, e um dos mais reconhecidos estudiosos e seguidores de Stanislavski (The Fundamentals of Stanislavski's Method); e Jonas Bloch, que além de ser o grande ator que todos conhecem, é uma grande professor. Ambos tiveram uma passagem de extrema importância na minha formação. Falar de formação artística, para mim, não é citar um lugar em que se ganha um diploma e sim citar inúmeros locais e pessoas que passaram por minha vida.

Desde: Há dez anos, você fundou a produtora Operários da Alma. Quais mudanças percebeu no mercado cultural de lá pra cá?

SG: A prática melhorou muito o fazer cultural de todos. Os projetos são melhor elaborados, vários gestores culturais trouxeram os conceitos da economia criativa para gerir atividades mais lucrativas e que atendam demandas claras da cultura nas suas cidades. Hoje, é comprovado que a cultura no Brasil tem grande peso econômico. A economia criativa é responsável por injetar R$ 171 bilhões na economia brasileira. 

Desde: A Operários da Alma busca sempre realizar projetos culturais voltados para a inclusão social. De onde vem essa preocupação?

SG: A produtora tem duas vertentes: uma é essa que você citou e a outra é trabalhar com projetos com pesquisa artística e, nesse caso, não necessariamente vai trabalhar com inclusão social. A inclusão social surgiu através de uma série de acontecimentos na minha vida. Acredito que tudo começou quando atendi a um telefonema da Magdalena Rodrigues (presidente do Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Minas Gerais - SATED Minas), dizendo que gostaria que eu conhecesse um grupo de cegos que precisava de um professor para montar um espetáculo. Relatei o meu receio em trabalhar com pessoas com deficiência visual, mas, a princípio, eles falaram que precisavam de um professor/diretor paciente e que gostasse de pesquisar. Por isso, estavam me convidado para trabalhar com eles. Propus duas semanas de experiência para que pudéssemos sentir como seria trabalharmos juntos, mas, para minha surpresa, foi ótimo! Depois desse dia, eu passei a entender cada vez mais afundo sobre a importância da inclusão social na cultura desse país e tudo aconteceu naturalmente.  

Desde: Embora trabalhe também com outros setores culturais, o principal campo de atuação de sua produtora é o audiovisual. Na sua opinião, o que falta ao audiovisual brasileiro?

SG: Já faz tempo que audiovisual brasileiro conquista os maiores festivais internacionais do mundo. Recentemente, Bacurau e Vida Invisível ganharam dois dos principais prêmios de Cannes. Pacarrete foi o grande vencedor do Los Angeles Brazilian Film Festival - LABRFF. Antes, teve Aquarius, Gabriel e a Montanha, Que Horas Ela Volta?, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Cinema, Aspirinas e Urubus. Isso para não citar vários outros filmes premiados em Sundace, Berlinale, Toronto etc. Saindo do cinema e indo para a obra seriada, a Netflix quer investir 350 milhões de reais em conteúdo brasileiro. A Disney e a Amazon estão vindo para o mercado brasileiro. Fica claro, mesmo sabendo que é importante melhorarmos sempre, que a falta do audiovisual brasileiro não está nos artistas, técnicos e a mão de obra. Então, sobra para o reconhecimento de uma boa parte do público e do governo atual. Acredito que é necessário divulgar melhor cada produto do audiovisual brasileiro para o próprio país. Sem essa divulgação, como as pessoas vão perceber a importância desses filmes? E essa falta de divulgação impacta diretamente no tempo que um filme brasileiro fica em cartaz no cinema e, consequentemente, afeta no planejamento de lançamento. Poucos filmes brasileiros reconhecidos lá fora conseguem ter cauda longa no mercado daqui. Isso precisa ser revisto.

Desde: E o audiovisual de Minas? Quais são as principais demandas?

SG: Recentemente, foi aprovada uma lei de fomento do audiovisual no Estado de Minas Gerais. Temos pessoas trabalhando muito em Minas para mostrar a importância do audiovisual no Estado e o setor vem sendo apontado como um dos mais promissores da cultura em Minas Gerais. Acredito que essa ação vai melhorar muito algumas demandas, como a produção, a exibição, o público etc. Mas agora é ajustar algumas questões, trabalhar e aguardar para entender quais impactos teremos no setor.

Desde: 2019 não foi um ano fácil para o setor cultural, que sofreu com censura e desmantelamentos. Quais, na sua opinião, são as perspectivas para a área até 2022, quando encerra a gestão do presidente Jair Bolsonaro?

SG: A cultura é a identidade de um povo e vital para uma sociedade. Acho que é tão notório isso, que o melhor a se fazer é citar uma frase de Mario Quintana: “Eles passarão... Eu passarinho”.

Desde: O cinema, inclusive, foi muito atacado pelo atual chefe do Executivo federal. Como o meio lidou com esses ataques?

SG: Também houve ataques na época do Collor sobre a Empresa Brasileira de Filmes (EMBRAFILME). A ANCINE (Agência Nacional do Cinema) surgiu no governo do Fernando Henrique Cardoso e hoje sofre ameaças parecidas. Mas, dessa vez, o setor teve tempo de mostrar sua importância, inclusive na economia brasileira. Então, está claro que a ANCINE deve permanecer e corrigir algumas ações no setor administrativo e nunca na seleção de filmes, pois nesse ponto a ANCINE sempre foi democrática e deve continuar assim. Enquanto isso, o setor vem criando novas parcerias, vem surgindo novas coproduções. A união de produtoras as fortaleceu e isso é um ponto muito positivo no setor.

Shelmer Gvar: "Aqui existe muita desinformação", ao falar sobre as críticas à Lei de Incentivo à Cultura. Foto: Bruno Rezende.

Desde: Qual é a função do cinema na sociedade atual?

SG: A função do cinema atual é a mesma que sempre será: retratar a realidade de uma sociedade, questionar caminhos da humanidade, provocar reflexões de diversas naturezas, emocionar e entreter.

Desde: Se o Brasil atual fosse um filme, de qual gênero seria? Por quê? 

SG: Dizer um único gênero para um país com a enorme pluralidade cultural que temos é uma tarefa impossível. Lembra das locadoras de vídeos? Lá, os filmes eram divididos por gêneros. Eu diria que o Brasil é uma locadora de filmes inteira.

Desde: O seu primeiro documentário, Além dos Sentidos, aborda a realidade de algumas pessoas surdas. Qual foi a motivação para produzi-lo?

SG: Eu fiz alguns trabalhos como professor de interpretação cênica para pessoas com deficiência visual junto com a fonoaudióloga Camila Rezende. A Camila tem uma linha de pesquisa na saúde auditiva. A motivação foi realizar um projeto que desse a continuidade da inclusão social em uma área que a produtora ainda não tinha atuado, que é a deficiência auditiva. Também ter a Camila na pesquisa do documentário me motivou muito. Ela que trouxe para o documentário vários contatos de grande relevância, como, por exemplo, Neto Oliveira, que tem forte representação na saúde auditiva de Minas Gerais e o CEMEAR, que é referência na reabilitação auditiva. Buscamos também as comunidades de pessoas surdas. Deu muito certo, tanto que o filme (que contém Libras) foi lançado no Cine Humberto Mauro com uma quantidade tão elevada de público que o Palácio das Artes foi obrigado a abrir uma segunda sessão lotada. Desse público, uma grande parte era de pessoas com deficiência auditiva, que nunca tinha pisado no cinema.

Desde: O seu olhar para os artistas de rua mudou após produzir o documentário A Peleja da Essência ou você já tinha um olhar atencioso para eles?

SG: Eu já tinha um olhar muito atencioso para eles. A arte de rua existe desde o princípio da arte no mundo. Particularmente, no Centro de Pesquisa Shakespeariano, estudei muito sobre a Commedia dell'Arte e foi inevitável a comparação daqueles artistas medievais com a arte de rua de hoje. Eu sempre me acostumei a enxergar a arte de rua como uma pequena performance que carrega a essência desse teatro popular. Engraçado que muitas vezes eu até identificava em alguns artistas de rua atuais os arquétipos medievais, como o Brighella, Pantalone, Arlecchino etc. Quando escolhi os artistas que participariam do documentário, o principal critério era que eles tivessem uma linha de pesquisa artística e foi o que eu mais encontrei. O artista de rua de verdade é aquele que se aprofunda numa pesquisa popular, aprimora sua técnica e está sempre se reinventando.  

Desde: O seu mais novo filme, Passageiro, que, de acordo com o site da Operários da Alma, está em fase de finalização, trata das passagens (mudanças) na vida de nove personagens. Qual foi a passagem mais significativa da sua vida? Por quê?

SG: Eu poderia citar tantas. Já que você citou o filme, que, por sinal, o título ainda não é definitivo, vou eleger a passagem desses alunos/atores/amigos que encontrei na minha vida. Sobretudo, a Bárbara Lemos, Geovane Carvalho, Gracielle Prado, Fabiano Mesquita, Kelly Kooly, Marcella Freittas, Luiza Uckermann e o Robson Wallace (Mutante). Nossa pesquisa foi justamente a passagem. Tivemos alguns exercícios cênicos muito afetivos e todas as passagens deles foram as minhas. Hoje, cada um seguirá seu caminho e a sua passagem. O tempo de três anos que convivemos será marcado para sempre. O filme é o fruto disso tudo e vai eternizar esse momento. Está aí uma bonita passagem da minha vida.  

Desde: A Lei de Incentivo à Cultura (antiga "Lei Rouanet") passou por mudanças no primeiro ano da gestão de Bolsonaro. Antes disso, o instrumento de fomento à cultura já recebia críticas de artistas e produtores culturais. Qual análise você faz disso tudo?

SG: Primeiramente, é necessário dizer que em vários países existem as leis culturais, inclusive nos Estados Unidos e Europa. Aqui existe muita desinformação. Para começar, as críticas que você cita dos artistas e produtores não são as mesmas do governo. Pelo contrário. É o oposto. O setor da cultura pede melhoria na distribuição do incentivo e o governo questionava a existência da Lei. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas apontou a Lei Rouanet com um retorno financeiro 59% maior que o valor financiado pelo governo. Isso mostra um impacto econômico altamente positivo para o país. Acredito que foram esses dados e outras informações que fizeram o governo recuar sobre a ideia de acabar com a Lei. Tanto que eles decidiram mudar o nome da Lei, buscar estudar melhor a distribuição e manter o incentivo. Outra desinformação muito grande está no público que acha que o governo sai dando dinheiro para artista. Não é assim. Após a aprovação do projeto no governo, são os empresários que decidem sobre o incentivo através de um repasse do dinheiro que vem de uma pequena porcentagem do Imposto de Renda, que a empresa já teria que pagar ao governo. O montante do incentivo do governo é irrisório comparado com outros setores do Brasil. A Cultura custa 0,66% dos 100% dos gastos do governo. 

Desde: Você é multifacetado, tem experiência em teatro, cinema e TV. Contudo, e é uma pergunta filosófica, o que você mais gosta de ser?

SG: Filosoficamente falando, eu gosto de ser eu na arte dos encontros que a vida me proporciona. Esse caminho me inspira e me transforma no dia a dia.

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Twitter: www.twitter.com/shelmergvar 
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